Por Matheus Mattos

Dando sequência a série que visita os 14 barracões das escolas de samba do Grupo Especial de São Paulo, a reportagem do CARNAVALESCO conversou com o responsável pelo desenvolvimento do enredo: “Liberdade – O Canto Retumbante de um Povo Heroico”, Dione Leite da Acadêmicos do Tucuruvi.

O carnavalesco diz que o enredo é uma ideia antiga e revela também que a proposta inicial era diferente da apresentada.

“O enredo surgiu pra mim na verdade no ano passado. Era uma proposta que eu tinha para Dragões, mas na época ele tinha outra conotação, não era essa de liberdade. A inspiração veio da música ‘O Canto das Três Raças”, da Clara Nunes, eu sou muito fã dela e amo essa música, e via setores muito explícitos. Por uma questão de autorização do ex-marido, o enredo não rolou na época. Quando vim pra Tucuruvi apresentei a proposta, porém mudei, continuei com a mesma estrutura, mas mantive a minha inspiração na música”.

O enredo traz uma visão crítica do sistema nacional comparando os fatos presentes na história do Brasil. Dione conta que a similaridade dos episódios que ocorreram com os dos dias de hoje é o que mais chamou a atenção.

“A gente percebe em todo tempo na história do Brasil que tudo que aconteceu em 1.500 anos atrás, na invasão, até os dias de hoje acontecem. A questão da coroa portuguesa ainda acontece, a questão dos negros ainda acontece no Brasil. O povo brasileiro é um povo que vive oprimido, o opressor, que é o poder, é muito forte e isso é um ciclo. Falam que ‘ah, o índio passou por isso’, não, o índio ainda passa por isso, ele perde a casa dele pela urbanização da indústria. O negro, que sofreu tanto dentro dos cativeiros, hoje continua nos cativeiros junto com as minorias, que são as comunidades que abarcam o Brasil. A coroa que nos roubava faz pensar ‘será que a gente ainda não é roubado?!’. E o sistema atual não tem nem o que falar, ele é uma repetição de tudo isso. Esse é o propósito da Tucuruvi, um intuito de passar uma mensagem, fazer uma reflexão muito grande”.

Nos últimos anos os temas “polêmicos” ganharam força dentro do carnaval, as agremiações estão usando os seus espaços para criticar e reivindicar. Sobre tal afirmação, Dione complementa:

“Carnaval é uma arte ainda do povo, uma arte que ainda se tem uma voz ativa pra crítica, então a gente tem que usar o carnaval a nosso favor. De repente parar de comercializar os nossos enredos e usá-los como uma arma direcionada ao nosso favor. A gente tentou todo tempo não fazer uma crítica pela crítica, e sim fazer uma crítica real”.

Mesmo sendo um enredo polêmico, o próprio carnavalesco afirma que não tem
nenhum viés político.

“Não tomamos nenhum partido político, até porque o problema do Brasil está além de direita e esquerda, e isso é uma opinião minha, do Dione, o problema do Brasil somos nós mesmos. Tivemos uma eleição agora onde ninguém votou a favor de nada, e a gente chega num estágio que é lamentável. Então a Tucuruvi não está falando direcionada a política, claro que não da pra evitar algumas menções, mas não é o foco do enredo. Nós falamos do povo brasileiro que precisa acordar e entender que o passado é vivido no presente ”.

Realizando o seu primeiro carnaval na agremiação da zona norte de São Paulo, o Dione ressalta que a Tucuruvi traz um desfile de carnaval diferente dos últimos anos e conta detalhes sobre possível surpresa.

“A gente tentou ao máximo dar uma identidade nova à Tucuruvi, uma identidade mais ousada. A Tucuruvi já é uma escola que tem na sua história enredos críticos, porém a gente faz adaptações. Trazemos alegorias vivas, se eu pudesse faria o desfile inteiro teatralizado porque eu amo isso. Pra mim o desfile de carnaval é um grande musical em andamento, então vai chamar atenção algumas alas de chão, as nossas alegorias estão bem grandes, o abre-alas é belíssimo. A grande surpresa mesmo é a ligação que queremos criar com a arquibancada, hoje cada componente da Tucuruvi tem na mão a responsabilidade de tocar alguém no desfile, e tenho certeza que a comunidade vai conseguir”.

Incêndio fez escola passar por reconstrução

O dia 04 de Janeiro de 2018 é um pesadelo recente para os sambistas da agremiação, isso porque o galpão de fantasias da Tucuruvi sofreu um incêndio, destruindo 75% da confecção para o desfile daquele ano. Por uma decisão da LIGA-SP, a escola não foi julgada.

Pouco mais de um ano após a tragédia, o atual carnavalesco Dione Leite cita especulações na internet e garante que a comunidade abraçou a ideia de reconstrução.

“Óbvio que a escola começou a prestar atenção em algumas coisas. Até pelo contrário de que muita gente imagina, até hoje acham que foi um acidente armado. Eu não acredito que o ser humano é capaz de promover tal crueldade, vai muito além de dinheiro e a Tucuruvi vinha com um carnaval muito forte, ainda mais no ateliê onde estava 90% finalizado, não tinha o por quê. Eu cheguei na Tucuruvi e a comunidade estava com um sentimento de ‘vamos lá’, e com todos pensando assim fica mais fácil chegar aonde quer chegar. A Tucuruvi estava aberta a uma reconstrução, e todos os profissionais de arte do carnaval sabe que é importante que nos dê essa liberdade de expressão”.

Além da nova identidade, o carnavalesco diz que os componentes estão mais
confiantes e aguerridos.

“A escola mudou muito. A Tucuruvi fez uma apresentação no lançamento de CD muito boa, deu um resultado muito bom, surpreendeu as pessoas que não esperavam ver a Tucuruvi daquela forma. Estou com um projeto que se chama ‘Projeto Evoluir Tucuruvi’ que se baseia nos conhecimentos neurolinguísticas e motivacional, e junto com a equipe técnica da escola conseguimos motiva-los. Hoje a gente tem uma comunidade que sabe a real função dela. Podem esperar uma escola muito emocionante”.

Conheça o desfile

1° SETOR – A Invasão do Pindorama

“A gente fala sobre a invasão do pindorama. Nós tratamos a chegada dos portugueses como uma invasão, e não como uma descoberta. Nós não fomos descobertos, fomos invadidos e saqueados”.

2° SETOR – A Negra Luta que atravessou o mar

“Aqui a gente trata sobre a resistência dos negros, desde a travessia né, de você ser traficado da sua terra, de muito preferirem a morte do que levado. Até ficou conhecida como ‘Travessia da morte’, onde chegariam nessa terra e sabiam que o mal já o esperavam, e não se tinha nem noção do quanto era o tamanho desse mal”.

3° SETOR – A peso de ouro. A luta por liberdade

“Nesse terceiro setor tratamos dos inconfidentes como uma parte muito importante. O movimento dos inconfidentes lutavam contra o roubo da coroa portuguesa, eles vinham aqui e levavam tudo que era nosso e deixava nada. Pessoas eram vistas como cabeça de ouro por causa do garimpo, trabalhavam incansavelmente no garimpo pra tirar o ouro que não ficava aqui na colônia. Com isso surgiu os movimentos abolicionistas, onde já existe uma proposta de liberdade mais explícita. Algumas pessoas viajavam para estudar na França, e lá não existia escravidão pelas ideias iluministas. Eles traziam essas ideias pra
cá depois de formados e por isso já vinham com a libertação na pauta. Aí se juntavam com os abolicionistas existentes e conseguiram chegar na liberdade. Mas na realidade não sabemos se fomos libertos ou não”.

4° SETOR – Nasceu a República e a luta por direitos

“Nesse setor a gente já fala um pouco sobre a busca dos direitos de um povo. A proclamação da República é vista como um golpe militar na época da quebra do império. Mas para o povo era um simbolo positivista, porque era a esperança de melhorias né, afinal começava a ser implementada no Brasil uma filosofia mais democrática, e o povo viu que ele podia ir pra rua procurar os  seus direitos. Isso é quando as grandes indústrias começam a parar, as torres param de jogar fumaça porque o povo percebe que ele tem o poder, e aí conseguimos conquistar o CLT, que pro povo é uma grande conquista. Abordaremos movimentos como o tropicalista que não se deixou calar mesmo com a perseguição da ditadura, e seguiu falando o que queria. Falaremos também de um dos grandes grandes movimentos de representatividade que a gente tem no mundo que o movimento LGBT, que apesar de ser clichê é um dos maiores movimentos de vozes ativas no mundo”.

5° SETOR – Pintei a nação e fui pra rua

“No último setor tratamos da atualidade. A gente mostra que como o nosso sistema atual permanece, na realidade eu faço uma leitura que mostra que a gente tem voz novamente, com o impeachment do presidente Collor sabíamos que tínhamos vozes. Porém a gente se torna burro no momento que vendemos´o nosso voto, o individualismo faz com que a gente não pense no povo, e assim sucessivamente até se tornar marionetes. A gente trata da atual eleição na última alegoria onde a polarização foi o tema central de tudo isso. Somos filhos da esperança e buscamos isso diariamente, uma das únicas fontes de
amadurecimento do Brasil é a educação”.

Ficha Técnica
5 alegorias
22 alas
2.800 componentes
3 tripés

História do carnavalesco Dione Leite

“Comecei no carnaval faz muito tempo. Eu passei por comissão de frente, diretor, coreógrafo, tudo isso lá no Sul do Brasil. Eu sou gaúcho da cidade de Pelotas, toda a minha criação no carnaval é de lá. Até que em 2006 eu decidi me aventurar em São Paulo e viver um pouco do carnaval daqui. A paixão cada vez mais foi aumentando, fui me profissionalizando e aqui consegui entender mais como tudo funciona e isso me deixou deslumbrado. Já são 12 anos de estradas. Me afastei do carnaval, fiquei um pouco desiludido e comecei a trabalhar em um ateliê. A dona pediu pra que eu costurasse uma fantasia pra ela porque ela iria desfilar no Rosas de Ouro, ai eu pensei ‘poxa, como o carnaval me persegue’ né. O ateliê fechou e eu abri um próprio, onde acabei realizando um trabalho pra Dragões da Real e para Mocidade Alegre. Quando acabou o carnaval o presidente Tomate da Dragões me chamou pra conversar e pediu pra que eu fosse o auxiliar da Rosa Magalhães daquele ano. De lá pra cá foram 5 belos carnavais, ao sair da Dragões, a Acadêmicos do Tucuruvi entrou em contato comigo, e outras duas agremiações também. Mas optei pela Tucuruvi porque é uma escola que tinha acabado de passar pelo incêndio, tinha todo um processo de reconstrução, e é muito bom quando você está em um lugar onde as pessoas querem essa mudança”.

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