Por Diogo Sampaio

Ao fazer uma releitura do clássico “Oferendas” no último carnaval, a Unidos da Ponte apostou no talento dos estreantes Guilherme Diniz e Rodrigo Marques, superou um temporal na pista e conseguiu garantir sua permanência na Série A, depois de passar 12 anos longe do palco principal da festa. Para 2020, a escola novamente deposita suas fichas em um novato na Marquês de Sapucaí, porém um velho conhecido da azul e branca de São João de Meriti: o carnavalesco Lucas Milato.

Responsável por assinar o enredo “Romance de Xangô: A Dança do Fogo”, que garantiu o campeonato da Série B em 2018, o artista regressa para agremiação com o objetivo de galgar posições ainda maiores que o décimo lugar do ano passado. Para a reportagem do site CARNAVALESCO, Milato contou como foi o convite para retornar à Ponte:

“Sempre tive uma relação muito boa com a direção da escola e com a comunidade. Ano passado, a gente não continuou a parceria por algumas divergências de opinião e de ideias, mas saímos de bem, tanto eu com a escola, quanto a escola comigo. Esse ano pintou a oportunidade de retomarmos o casamento e cá estamos nós”, relatou de forma sucinta.

Diante de uma das mais acentuadas crises do carnaval carioca, com o completo corte do repasse de verba oriunda da Prefeitura do Rio, tem se tornado corriqueiro a aposta de escolas em novos e jovens nomes, como o próprio Milato. Sobre a experiência de estrear no Sambódromo em meio a esse cenário adverso, Lucas Milato garantiu não se intimidar.

“As escolas estão apostando em nomes novos e são pessoas que querem muito mostrar seu trabalho. A partir do momento que você traz um nome novo, obviamente que a pessoa vai acabar vindo com uma vontade maior de fazer um trabalho incrível, para poder se mostrar também. Então, acho que nesse momento de crise, fazer uma aposta ou uma estreia é até interessante por isso, porque é uma pessoa que vai estar ali fazendo não só pela escola e pela comunidade, mas por ele próprio também. Esse momento é bem interessante inclusive por isso”, avaliou.

Para Milato, o lançamento de novos profissionais faz parte do processo de renovação do carnaval, pois estes trazem novos olhares e pensamentos para festa. Algo, segundo ele, é fundamental para conservação do samba e da folia como um todo.

“Acho que isso é importante não só para classe carnavalesca, mas para os segmentos de uma maneira geral. Inclusive isso faz parte da síntese do nosso enredo, que é justamente quando a gente fala sobre a manutenção do samba, que se faz necessária principalmente agora nessa crise que a gente está vivendo. Então, quando você aposta em novos nomes, você de certa forma, está contribuindo para isso: trazendo temáticas novas, propostas novas… O próprio enredo da Ponte sai um pouco da caixinha, porque é uma temática não tão comum, né. Quando você pega um conceito filosófico e transforma em enredo, você acaba trazendo uma pegada um tanto quanto diferente. Então, acho isso extremamente válido e não só para classe carnavalesca, mas a gente vê intérpretes novos que estão assumindo seus postos, enfim. De uma maneira geral isso é muito importante”, destacou.

Experiência para tirar da cabeça, o quê não tem no bolso

Em seu currículo, Lucas Milato traz passagens como desenhista e assistente em diversas escolas de samba do Rio, como Paraíso do Tuiuti, Alegria da Zona Sul, Jacarezinho, Inocentes de Belford Roxo e Unidos de Padre Miguel. Entretanto, a primeira oportunidade como carnavalesco só veio na Intendente de Magalhães, quando assinou o desfile de 2017 do Acadêmicos da Abolição. Ainda na passarela popular, passou pela Sereno de Campo Grande, além da própria Ponte.

“Passar pela Intendente Magalhães é um estágio obrigatório para quem quer seguir esse ramo, porque você é obrigado a pensar e repensar em soluções para suprir uma falta de aporte. Com isso, você acaba aprendendo muita coisa, e acaba também se descobrindo em algumas propostas que é obrigado a fazer. Acho importantíssimo, afinal é uma experiência, é uma bagagem diferente que você traz. Não digo que facilita, mas assim, quando você faz um carnaval com um aporte financeiro maior ou considerável, nem diria maior porque hoje na Série A a gente nem tem, mas faz um carnaval com um aporte financeiro digno, é um pouco mais tranquilo, pois você consegue fazer o que você pensou inicialmente”, comentou.

De acordo com Milato, o aprendizado adquirido em três anos consecutivos desenvolvendo desfiles na Intendente de Magalhães foi crucial para conseguir trabalhar sem a verba pública para Série A neste ano.

“Hoje sem esse aporte, a gente é obrigado a pensar em inúmeras soluções. Tem que ter um plano B, C, D, E, F… Vou dar um exemplo: Você pensou no material X, porém ele não chegou ou o orçamento não permitiu a compra dele, então você tem que buscar alternativas, o que às vezes nem tem. Nesses casos, a gente tem que mudar a ideia e conseguir um jeito de dar certo. Teve um carro aqui na Ponte que nós tínhamos duas opções: uma era esperar o material chegar, e não tinha chegado porque a gente não tinha ainda como comprar, ou fazer com o que tinha. Na época, dentro do nosso cronograma, nós já estávamos atrasados, a opção foi fazer com que tinha. Fomos catando de pouquinho em pouquinho no almoxarifado da escola e montamos um carro com as sobras de carnavais passados. É desse jeito que a gente está indo e está conseguindo levar o projeto”, afirmou.

Entre os materiais utilizados na confecção do carnaval da Ponte de 2020, o artista destacou o uso dos espelhos, sendo a maioria reaproveitados. Além disso, chamou a atenção para as fitas metaloides, que segundo ele, apesar do baixo custo, geram grande efeito no trabalho.

“Esse ano a gente está usando bastante espelho. Inclusive, espelhos achados, que nós tínhamos no barracão e ninguém sabia. É um material que dá um visual muito bom e que nem sempre a gente consegue comprar, por conta do orçamento. Tem uma solução muito boa também, que esse ano estou usando, que são umas franjas de metaloide, de fita metaloide, que é um material bem barato e que dá um efeito muito bom. O acetato, que sempre salva a gente… Enfim, esses e outros materiais”, apontou.

Para o site CARNAVALESCO, Milato revelou ainda os cuidados que teve para proteger seu trabalho de uma chuva, como a que atingiu a escola no ano passado. Dentre as precauções, estão a forração de todas as alegorias com material impermeável.

“As nossas esculturas são todas fibradas, o que dá uma segurança maior em caso de chuva. O piso do carro aqui na Ponte, esse ano pelo menos, a gente está forrando todos com plástico cristal, que é uma forma de proteger até de sujeira mesmo. Ou seja, a gente dá as nossas manobras para solucionar esses problemas”, detalhou o artista.

‘Elos da eternidade’

Intitulado “Elos da eternidade”, o enredo da Unidos da Ponte em 2020 irá propor uma reflexão acerca da relação do homem com o eterno, desde a procura por uma ligação com infinito, passando pela vontade de ser imortal, até a perpetuação por meio do legado deixado. Durante o bate-papo com a reportagem do site CARNAVALESCO, Lucas Milato falou como nasceu a proposta e como pretende desenvolvê-la:

“Por incrível que pareça, não era a ideia inicial, só que me vi na necessidade de não só estrear na Sapucaí, mas de fazer algo diferente, algo que, de certa forma, contribuísse para essa manutenção do carnaval, que hoje se faz extremamente necessária. Então, quando eu decidi falar da eternidade, que é uma temática bastante abstrata, por mais que ela venha ser apresentada na Sapucaí de uma forma bem direta, com uma leitura muito tranquila e muito fácil, é algo incomum, inovador. Afinal, a eternidade é um conceito filosófico e o enredo da Ponte propõe justamente uma reflexão sobre a relação da humanidade com essa ideia. A gente fala da fonte da juventude, do pacto com o Diabo, do sabá das bruxas… É uma temática que te abre um leque de opções concretas muito grande”, assegurou.

Entenda o desfile

Em 2020, a Unidos da Ponte irá para Marquês de Sapucaí com cerca de 1500 componentes, 21 alas, três alegorias e um tripé. A azul e branca de São João de Mereti será a terceira escola a se apresentar na sexta-feira de carnaval, primeiro dia de desfiles da Série A. O enredo “Elos da Eternidade” terá sua história contada através de quatro setores, como explica o carnavalesco Lucas Milato:

Setor 1: “A gente começa o desfile com o homem tomando consciência de que a eternidade existe. Ele faz isso a partir do momento que passa observar coisas que ultrapassam e que são superiores ao ser humano, o que traz essa ideia de gigantismo, de uma longevidade maior”.

Setor 2: “A partir disso, dessa admiração por coisas que ultrapassam, o homem passa a desejar a eternidade e vai à busca dela. É quando a gente entra no setor do desejo. Nele, apresentamos as diferentes formas que o homem tentou buscar para se eternizar”.

Setor 3: “Depois a gente entra no terceiro setor, que é quando ele chega a conclusão que ele não vai alcançar essas fórmulas mágicas, ele não vai conseguir essa eternidade física, essa imortalidade, e ele chega a conclusão que existem outras formas de você eternizar, que é justamente com o legado que você deixa. Então a gente e faz uma homenagem a pessoas que se eternizaram pelos seus feitos, seja na arte, na ciência, enfim”.

Setor 4: “Por fim, a gente encerra mostrando a eternidade do samba, que é justamente a que temos. É quando fazemos um alerta para que nós, sambistas, tratemos o samba como um universo nosso, que precisa ser cuidado, justamente para a gente consiga perpetuar esse nosso legado lá na frente”.

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