O Império da Tijuca desde o carnaval de 2013, vem arrancando muita expectativa e curiosidades do público quanto aos seus desfiles. Depois da merecida subida ao Grupo Especial com o enredo: “Negra, Pérola Mulher”, a escola vem mostrando um ótimo trabalho e desempenho, que muito se deve também à sua administração e ótima escolha de profissionais. Apesar da chegada triunfal ao Grupo Especial no carnaval de 2014, a escola logo foi rebaixada novamente ao Grupo de Acesso, atual Série Ouro. O rebaixamento foi tão inesperado que repercute comentários até hoje, não só dos componentes da escola, mas sim por todos os sambistas.

Fotos de Isabelly Luz/Site CARNAVALESCO

O jovem carnavalesco Guilherme Estevão é o responsável pelo desenvolvimento do desfile de 2022. O enredo “Samba de Quilombo – A Resistência pela Raiz” gerou muita expectativa não só na comunidade, mas também no próprio artista. “Eu comecei no carnaval virtual com 13 anos, onde eu ganhei três vezes no Grupo Especial, e isso acabou chamando atenção das pessoas no carnaval real. No carnaval real eu trabalhei da série de avaliação até o Grupo Especial como assistente e como figurinista, e fui fazendo como assistente e projetista alegórico várias outras cidades: Uruguaiana, Belo Horizonte, Vitória, Porto Alegre, etc. Em 2018, quando eu de fato viro assistente do Jaime Cezário no Porto da Pedra, isso abre uma porta fundamental e então eu chego no Grupo Especial como assistente na União da Ilha, e no mesmo ano faço a Independentes de Olaria como carnavalesco, resultando na vitória da escola e diversos prêmios. A partir desse trabalho o Império da Tijuca me convida e hoje estou há três anos no Império da Tijuca com um desfile só. Eu costumo brincar aqui que eu sou o carnavalesco mais longe da escola com um desfile só. Estamos indo para o segundo ano, o primeiro ano foi um ano também atípico porque eu chego na escola já com tema de enredo definido, tema da Educação, eu tive que desenvolver. Esse ano vai ser o primeiro carnaval com um tema meu apresentado a escola, por isso é um carnaval com muita expectativa”.

O Império da Tijuca levará para o Avenida, no dia 22 de abril, o enredo sobre “Quilombo”. Durante a entrevista, Guilherme Estevão contou ser um dos enredos favoritos do público, já era uma vontade sua de muito tempo, e que na verdade essa vontade teria sido descoberta através de uma pesquisa por até então outro enredo sobre Solano Trindade.

“Esse enredo já está guardado na minha gaveta tem uns anos. Eu comecei a descobrir a história do Quilombo pesquisando outro tema, que era Solano Trindade, um importante poeta negro, e com isso acabei descobrindo que Solano havia sido enredo em 1982 de uma escola chamada Quilombo, a qual eu ainda não conhecia. Quando fui descobrir que diacho de escola de samba era aquela, eu pensei: Caramba, que história incrível! A partir disso, me abriu um leque enorme. Obviamente eu tinha alguns receios, até porque o Quilombo é uma escola de samba contra esse processo que a gente vive hoje, a disputa. O Quilombo não disputava carnaval, ele era manifesto contra algumas questões do carnaval. Mas ao passo que eu fui pesquisando Quilombo, eu fui encontrando uma série de similaridades com o Império da Tijuca, então isso foi cada vez mais agregando valor e me sinalizando de que eu deveria trazer esse tema que foi logo abraçado pela diretoria da escola e depois pelos componentes, e eu acho que por todo o grupo de sambistas que amam o carnaval e reconhecem a importância de trazer um enredo como quilombo nesse momento em que estamos vivendo”.

Quando perguntado sobre o que mais o fascinou na pesquisa pelo enredo, o artista do Império da Tijuca citou: “Eu acho que foram esses pontos de encontro com o Império. Primeira questão que eu achei incrível foi um elo espiritual que eu nem conhecia, o Império da Tijuca e o Quilombo são do mesmo dia, 8 de dezembro. Também possuem a mesma padroeira (Nossa Senhora da Conceição- Oxum), então ali já dizia que elas tinham que estar juntas. O Quilombo querendo ou não, não é uma história antiga, a gente está falando de uma história com menos de 50 anos e que muita gente não conhece, além de ter envolvido muito baluartes do carnaval, pessoas que são fundamento e raiz da história do samba e do carnaval e que a história foi omitida e negligenciada durante esse período. Até o conteúdo do Quilombo foi difícil de encontrar, fui buscar através de tese de doutorado e documentários. Quando vamos descortinando os desfiles do Quilombo, porque até mesmo se falar do Quilombo, se lembrava muito do período em que Candeia era vivo. Candeia fundou a escola em 1975 e ficou até 1978. Mas o Quilombo desfila até 1985, então tem uma serie de personagens e de movimentos da cultura afro brasileira de exaltações que o Quilombo fez, que foram muito enriquecedores de descobrir durante essa pesquisa. E mais do que isso, identificar músicas que as pessoas cantam em rodas de samba que elas nem sabem que eram samba enredo do Quilombo. Martinho da Vila, Luiz Carlos da Vila, Nei Lopes. Quando a gente passa a encaixar as peças, as coisas ganham um olhar e uma importância ainda maior”, relatou o carnavalesco.

Não é de hoje e nem segredo para ninguém a discrepância financeira entre o Grupo Especial para a Série Ouro e o quanto essa diferença implica na qualidade do desfile. Por conta da falta de verba, muitas escolas possuem dificuldade seja para se manter no Acesso ou para se manter no Grupo Especial quando sobem. O que já era difícil em tempos normais, se tornou ainda mais complicado em momentos de pandemia.

“A gente está sempre tendo que se adaptar à realidade que é muito dura aqui na Série Ouro, eu diria até que no último carnaval foi ainda pior, porque a gente não teve subvenção alguma, foi um carnaval de milagre aqui no Império da Tijuca, trouxemos notas e um desfile digno. Esse ano a dificuldade também é enorme, querendo ou não você passa dois anos dentro de um projeto em que você repetidas vezes para e anda. Até janeiro as perspectivas eram uma, depois você muda as perspectivas quando mais uma vez interrompe o ciclo e adia o carnaval. Você tem mudança de regulamento justamente pela realidade em que o país e consequentemente o carnaval enfrenta. Foi um carnaval muito cansativo em todos os sentidos. A realidade financeira nos obriga a criar soluções. Aqui no Império a gente buscou fornecedor de vários lugares diferentes para conseguir dar conta de trazer material bom para esse lugar, porque a gente passa por uma crise de produção muito séria aqui no Rio de Janeiro e no país depois da pandemia. Os valores dos produtos estão muito altos por causa do dólar. A gente já tem uma dificuldade muito grande em relação ao calendário do repasse de verba, é uma indefinição muito grande sobre as coisas, e aí a gente tem toda essa incerteza sobre a realização ou não do carnaval. Acho que no final a gente quer muito que esse carnaval saia não só para mostrar o nosso trabalho, mas também para dar uma pausa na cabeça, porque é um cansaço imenso durante esses dois anos de ciclo. Foi talvez o ciclo mais desgastante para todo mundo, não só para o Império da Tijuca, mas sim para todo o Acesso e Intendente, onde esse processo com certeza foi ainda pior”.

Enredo e samba

Mesmo com todos os empecilhos, a escola promete não só para a comunidade do Morro da Formiga, e sim para todo o público um ótimo espetáculo. No barracão, junto ao carnavalesco Guilherme Estevão, outras figuras importantes lutam apelos últimos ajustes para o desfile da escola, destaque para o diretor de barracão Luan Telles e o chefe dos aderecistas Rafael Furtado. A escola conta com 1500 componentes, 20 alas, 3 carros e 2 tripés, sendo um da comissão de frente.

O Império da Tijuca é sempre reconhecido por seus belíssimos sambas por consequência de enredos muito bons. O carnavalesco defende a importância social do enredo da escola para a sociedade, além de prometer um desfile trazendo a verdadeira essência cultural do samba, exaltando a personalidade negra e a tornando protagonista da festa.

“Eu acho que o grande trunfo do desfile é ser verdadeiro com aquilo que é a essência do samba. A gente vive um momento que é delicado, é o momento da transformação do carnaval, de desgaste de muitas formas, desgaste do processo que o carnaval vivia em termos de mercado, em termo de gigantismo. A gente passou agora dois anos sem carnaval, estamos vivendo uma nova realidade, que de alguma maneira obrigou as escolas de samba a se reaproximarem do seu próprio público, da sua própria comunidade, nas ações sociais, na ajuda ao enfrentamento da pandemia, nos problemas e nas dificuldades que a gente teve para os trabalhadores do carnaval. Acho que trazer um enredo que fala da essência fundamental do carnaval, que é o samba de verdade, é o reconhecimento e protagonismo negro na festa, a cultura afro brasileira essencialmente eu acho que é um trunfo muito grande para a gente. Estamos falando de raiz e de identidade, todo mundo que estava vivendo ali, sobretudo no Grupo de Acesso que é uma coisa mais povão, mais verdadeira, o caráter emocional da coisa ganha uma proporção muito maior, então eu acho que essa verdade que vai estar inserida tanto no desfile quanto no samba, é o grande trunfo que a gente tem, mais do que um elemento x ou y”.

Quanto ao impacto social do desfile, Guilherme Estevão afirma: “Esse enredo é importante justamente para a gente passar a se renxergar como escola de samba, como movimento cultural negro, entender o protagonismo do artista negro na festa, se reexergar também não só como objeto de mercado. A gente entende que hoje o carnaval é uma grande cadeia produtiva, gera bilhões para o estado e para a cidade, além de milhares de empregos, mas a gente também precisa entender a lógica fora do mercado do carnaval. É ruim a gente sempre só exaltar a questão financeira para justificar a sociedade que é importante ter desfile de escola de samba. É muito importante exaltar isso, é claro, mas a gente não pode perder de vista o caráter cultural, histórico e ancestral que envolve a escola de samba. Eu acho que esse enredo é justamente olhar para si novamente e entender o que é raiz e fundamento. Foi isso que o Quilombo fez em forma de protesto. Quando se cria a escola de samba é um protesto justamente contra esse novo olhar de mercado, isso lá na década de 70 e a gente segue vivendo isso agora em 2022”.

Entenda o desfile

Setor 1: “O primeiro setor do Império a gente começa apresentando as bases e os fundamentos do Quilombo, o que orienta esse projeto de escola de samba, que é a ancestralidade, a tradição, a resistência do povo preto e a proteção da cultura negra, arte negra. A gente abre com esses fundamentos para mostrar o que o Candeia chamava de nova escola”.

Setor 2: “Passamos para o segundo setor, onde vamos mostrar quais eram as bandeiras de luta desse Quilombo. O Quilombo está inserido no processo da década de 70, que é um momento de ressurgimento do movimento negro, que estava sendo clandestino e oprimido durante a ditadura militar, e aí nesse processo surgem vários núcleos de pensamentos políticos, culturais e sociais da cultura negra e um movimento unificado negro que dentro desse processo estava o Quilombo. Então o Quilombo tinha várias bandeiras de luta, era o reconhecimento da negritude brasileira, do papel político do negro, o processo quanto a essa mercantilização do carnaval e contra esse embranquecimento do carnaval. Ou seja, esse afastamento do protagonismo negro e valorização dos artistas plásticos que não são da comunidade e não vieram da comunidade”.

Setor 3: “No terceiro setor, a gente mostra que o Quilombo era um centro de artes negras, como diz o próprio nome da escola, então era o lugar onde as práticas folclóricas e culturais negras eram exaltadas, como a capoeira, o jongo, maracatu, afoxé, samba de caboclo e rituais afro religiosos. E a gente encerra o desfile trazendo todos os desfiles do Quilombo, os quais tinham como obrigação homenagear heróis, momentos ou lutas da cultura afro brasileira. Então esses desfiles trouxeram Zumbi dos palmares, Solano Trindade, os 90 anos da abolição, os cinco séculos de resistência”.

Setor 4: “E então encerramos isso tudo unindo essas duas resistências, a resistência negra do Império da Tijuca com a resistência negra do Quilombo, que tem um elo para além de resistência e de cor por se reconhecerem escolas pretas, tem um elo espiritual que é o elo da padroeira Oxum, então as escolas tem algo muito íntimo e muito forte que une as
duas agremiações e em todos os sentidos”.

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