Por Gustavo Lima

A reportagem do CARNAVALESCO conversou com Flávio Campello, que desenvolve o carnaval do Império de Casa Verde para 2020, com o enredo: “Marhaba Lubnãn”, uma homenagem ao Líbano. O artista que fará seu 11º trabalho em São Paulo, disse que o enredo o conquistou desde o começo, pela história que o Líbano tem, mesmo sendo o menor país do Oriente Médio.

“É um enredo que me conquistou desde o primeiro instante, porque como historiador eu sempre tive um carinho muito especial pelo oriente, principalmente, essa fase da Idade Média, as cruzadas, sempre tive um fascínio por isso e o cenário das cruzadas era sempre Iraque, Arábia, Irã e quando chegou o enredo, eu fiquei impressionado pela história de um país pequeno, porque o Líbano dentre os países que compõe o Oriente Médio, é o menor, é do tamanho de estados que nós temos aqui no Brasil. Um país com 4 milhões de habitantes, 7 mil anos de história, e transformar toda essa história em 65 minutos de desfile, foi um trabalho árduo, porque nós tivemos que pontuar bem o trabalho de pesquisa e o que seria mais importante”.

As pessoas têm criticado os enredos “CEP”, mas o carnavalesco vê muita cultura e história envolvida, especialmente no Oriente Médio, que desencadeou muitas coisas importantes para a humanidade, como o cedro para construções, os fenícios que deram importância para navegação, além de ser os primeiros povos a criar uma cidade-estado.

“Poderia ser feito 4, 5 ou 6 carnavais para poder contar a história do Líbano. Os fenícios, que é a civilização mais antiga do mundo, porque até fincarem raízes e criar uma sociedade, a humanidade vivia nômade, então andava pelos países, regiões que
fincavam aquelas aldeias, mas depois de um tempo não estavam mais ali. E a importância que os fenícios davam às navegações, foram os primeiros navegadores da humanidade, a importância que eles davam a madeira, que inclusive é o símbolo do país, que é o cedro, acabou atraindo outras 22 civilizações para aquele território, e o Líbano teve uma importância muito grande para elas, porque as construções que a gente conhece como as pirâmides, alguns templos no Egito, Jardim Suspenso da Babilônia e uma infinidade de construções, eram utilizadas com o cedro do Líbano. O cedro teve uma importância muito grande na construção de algumas civilizações e na própria construção da história do país”.

Os países do Oriente Médio têm a religião muçulmana predominante, e no Líbano não é diferente, mais da metade da população segue tal doutrina. Flávio Campello contou como é lidar com um possível preconceito por parte dos religiosos, principalmente na questão das vestimentas.

“O Líbano passou por inúmeros momentos de transformações, hoje por mais que tenha mais da metade da população muçulmana e a outra metade católica, a influência ocidental é muito presente por lá. Então você consegue ver sim as mulheres muçulmanas cobrindo o rosto ou a cabeça, mas também usam calça jeans, roupas totalmente ocidentais, não tem mais aquele traje de burca, mais pesada, mais conservadora, não existe. Somente os muçulmanos ortodoxos, radicais que você ainda encontra isso, principalmente os mais antigos, as pessoas jovens não muito, tanto é que as muçulmanas frequentam as praias do Líbano, turistas também. Você percebe que hoje não há mais aquele radicalismo todo dentro do país”.

Um dos maiores desafios dos carnavalescos nos dias de hoje, é fazer com que o público em geral consiga enxergar tudo o que o desfile abrange. Flávio Campello disse que primeiramente tem que se preocupar com a leitura e também sempre usa pessoas leigas para dar o aval em suas fantasias.

“Unir essa santíssima trindade do carnaval, que é o público, jurado e telespectador, é muito difícil. Antes de eu fechar um figurino, eu pego pessoas mais leigas para fazer uma leitura, ‘tipo, nessas fantasias vocês estão vendo o quê? Aí um exemplo, eu tenho uma fantasia que representa o deus das tempestades da mitologia fenícia, que é o Baal Haddad, é uma nomenclatura difícil, da qual muita gente não tem noção do que seria, e quando mostrei fantasia, falaram: ‘tem um raio, um trovão, um relâmpago’, então eu vi que tinha leitura, era isso que eu queria, que o deus da tempestade tivesse ilustrado de alguma maneira e soubesse o que a fantasia representa. Então antes de bater o martelo em um figurino, eu tenho essa mania de pedir a opinião das pessoas que não entendem de carnaval, isso me ajuda muito na construção do projeto”.

Alegorias e fantasias luxuosas prometem ser o ponto alto do desfile

O Império de Casa Verde tem um histórico de investir muito em alegorias grandiosas, e o carnavalesco alegou que o maior desafio que encontrou na agremiação é justamente esse, a montagem de carros alegóricos bem-acabados para impactar o público no Anhembi.

“Sinônimo de Império de Casa Verde, é alegoria, porque não adianta, os caras aqui são muito apaixonados por isso, pelo barracão, pelo desenvolvimento do trabalho, do projeto de alegoria. A pergunta que eles fazem toda vez que nós vamos entregar o projeto é quanto tem de altura, eles se preocupam com isso, eles gostam dessa imponência que o Império adquiriu ao longo desses anos. É um desafio muito grande e eu gosto alegorias grandiosas, até porque o carnaval de São Paulo nos proporciona isso. As surpresas do nosso desfile estarão nas alegorias, nos elementos cenográficos, nós temos grupos que vão dar vida a nossa alegoria, que é uma grande aposta que nós estamos fazendo esse ano, e as fantasias também estão muito luxuosas. Quem é imperiano há muito tempo e vem ao barracão, chega para mim e fala assim: ‘Estou vendo o carnaval de 2007’. Isso para mim é gratificante demais, porque o carnaval que tem na minha memória como grande referência do Império de Casa Verde, é o de 2007, e se a gente chegou a esse patamar, é sinal de missão cumprida”.

Conheça o desfile

SETOR 1: MAR MEDITERRÂNEO
“O Mar Mediterrâneo foi o cenário ideal para que os fenícios adentrar pudessem lá dentro, inclusive tem uma lenda de que os fenícios chegaram ao Brasil há mil anos antes do Cabral, existem escrituras do alfabeto fenício em várias partes do Brasil, inclusive na Pedra da Gávea lá no Rio de Janeiro, na Amazônia também, então de fato os fenícios pisaram em solo brasileiro antes do Cabral e isso prova a força que os fenícios tinha para desbravar os oceanos e o Mar Mediterrâneo é a porta de entrada, foi onde eles começaram as navegações e decidimos abrir o carnaval como se fosse uma grande viagem e a entrada do Líbano fosse o Mar Mediterrâneo”.

SETOR 2: MITOLOGIA FENÍCIA
“Eu fiquei encantado com essas divindades, até porque como os fenícios foram a primeira civilização, a mitologia deles está presente em várias outras. Então têm muitos deuses na mitologia grega, romana, egípcia que tem uma relação muito forte com a mitologia fenícia e nesse setor eu estou exaltando isto”.

SETOR 3: LÍBANO NA IDADE MÉDIA
“Estaremos representando o Castelo de Beaufort, que é uma grande construção que eles têm no Líbano, que era um castelo medieval e eu reconstruí esse castelo, porque na verdade, hoje tem uma ruína dele e fui atrás para saber como ele era, quantas torres tinham, para gente poder fazer a reconstrução. Estaremos exaltando as civilizações também, os egípcios, gregos, romanos, macedônios, babilônios, sírios, persas, todos que fizeram parte dessa história libanesa”.

SETOR 4: QUE HERANÇA É ESSA?
“Falaremos da herança cultural deixada pelos libaneses. Temos a influência da culinária, do próprio alfabeto fenício, eles tinham uma cor que era extraída de um pequeno molusco na praia do Mar Mediterrâneo que saía um pigmento púrpuro, então a cor púrpura foi uma invenção dos fenícios e era uma cor que vestia a realeza e nós estamos mostrando toda essa herança cultural deixada pelos libaneses”.

SETOR 5: COMUNIDADE LIBANESA NO BRASIL
“E a gente fecha o carnaval fazendo essa homenagem à comunidade libanesa. Dom Pedro II assinou um manifesto em 1876 autorizando a vinda dos libaneses para o Brasil, a imigração libanesa começou a partir daí, tanto é que eles consideram Dom Pedro II um grande patriarca da imigração libanesa para o Brasil e nessa última alegoria nós faremos essa homenagem a Dom Pedro II e a vinda de todos os libaneses para o Brasil. Neste carro tem o símbolo da nossa escola, a coroa que é símbolo da Império de Casa Verde também e uma grande embarcação que trouxe toda essa essência libanesa como se o Império tivesse criado essa embarcação e tivesse indo buscar os libaneses para fazer parte da nossa história”.

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