Rendas, babados, pompons. O gresilense pode esperar um reencontro com a plástica que coroou a Imperatriz Leopoldinense na década de 90 em seu próximo carnaval. Com o enredo “Meninos, Eu Vivi… Onde Canta o Sabiá, Onde Cantam Dalva e Lamartine”, a escola retorna ao Grupo Especial após uma reedição campeã e imponente na Série Ouro, em 2020. Em entrevista ao CARNAVALESCO, Rosa Magalhães, responsável por desenvolver o enredo e Bruno de Oliveira, seu assistente nesta jornada, revelam detalhes do que o público deve receber na avenida nas próximas semanas.

De acordo com a carnavalesca, a ideia original do enredo partiu de Luiz Pacheco Drumond, ex-presidente da escola que faleceu em julho de 2020. “O Luizinho foi lá em casa, e me convidou para fazer a escola esse ano. Ele me disse que queria que o enredo fosse esse. Então, quem escolheu foi ele. ‘Tem que ser o Arlindo’, aí eu disse tudo bem. Na verdade, eles eram muito amigos e o Arlindo deu o primeiro título para a Imperatriz. E depois, saiu da escola, mas acabou voltando. O último carnaval do Arlindo ele fez aqui. E aí acabou morrendo no meio do ano. Era uma escola pequena, porém conhecida. De repente deu aquele salto”, conta Rosa.

Bruno de Oliveira é assistente de Rosa Magalhães na Imperatriz

Todo o desenvolvimento da pesquisa ficou a cargo de Rosa Magalhães. Entretanto, Oliveira que é também carnavalesco da Caprichosos de Pilares, assumiu como o seu braço direito para auxiliar na execução das fantasias que a escola levará para a Marquês de Sapucaí. “A minha função começa a ser mais atuante quando se iniciam os protótipos das fantasias. Ela elabora os figurinos e eu começo a discutir com ela a questão de tirar do papel. Em termos de pesquisa eu fui atrás de imagens, coisas que eu sugeri para ela a fim de influenciar no desenvolvimento das fantasias. Tudo o que eu conhecia, carnavais e fantasias antigas do Arlindo eu passava para a Rosa. Eu sou um apaixonado pelo Arlindo”, revela.

Oliveira teve uma passagem longe da escola a partir de 2017. Mas o seu retorno veio cercado de muita expectativa e boas surpresas, afinal, ao saber que dividiria os trabalhos com a professora, realizava também um sonho. O primeiro croqui de fantasia que ele teve contato foi elaborado por Rosa Magalhães, dessa forma, ela o inspirou a desenhar fantasias de carnaval. Para o desenvolvimento desse enredo, ele foi atrás dos materiais que Rodrigues costumava usar, bem como as texturas para chegar ao máximo possível da qualidade esperada.

“Além de aprender a execução, como pessoa ela é muito tranquila, didática em suas explicações, desprovida de vaidades. Ela dá a possibilidade de voz para contribuição. Eu me senti um privilegiado. Eu me lembro quando fui à casa dela discutir os figurinos, algumas situações ela indicava, mas falou fique à vontade, então não tem coisa melhor de ouvir da professora. E na pandemia, não tínhamos esse contato pessoalmente, muita coisa foi definida por vídeos e fotos. Ela costumava dar muitas dicas dos tons das cores, por exemplo. A Rosa é conhecida no Brasil e no mundo e sempre me incentiva. Isso me dá força e vontade para trabalhar. No fim das contas, ela exercitou uma coisa que eu nunca havia feito que é tirar do papel. Testar textura, volumetria, o que fica ou não legal. Ela desenhou e eu executei, geralmente é o contrário”, completa.

Há uma semelhança entre os estilos executados nas histórias de Rosa Magalhães e Arlindo Rodrigues. Para Oliveira, ao assistir o carnaval de 1995, ele consegue observar similaridades como a modelagem das fantasias e a renda utilizada. Com base nessas pesquisas, ele buscou refinar essas questões para que o desfile lembre a obra do carnavalesco, mas sem deixar de lado o estilo dela, respeitando sua identidade.

Rosa revelou também algumas curiosidades do passado com Rodrigues e reforça a homenagem que o enredo proporcionará. “Alguns elementos, por exemplo, eu sei que eles começaram com essa coisa do vime, inclusive quem começou com isso era um senhor, a gente chamava de Vimoso. O Arlindo fazia as coisas para o Salgueiro em uma loja de vime em Botafogo, adereço de mão, porque eles inventaram isso tudo por causa da versatilidade, material leve, material mais barato, fibra natural. Tudo isso não é invenção de ontem, é de muito tempo atrás”, explica.

Na visão de Oliveira, a própria escola e comunidade serão o grande trunfo da Imperatriz nesse carnaval, afinal, com o fato de retornar ao Grupo Especial, a agremiação vive uma nova e saudosa fase. Com vigor e força, ele acredita que não só eles, como toda a equipe, vão buscar resgatar a história campeã que a escola fez durante muitos anos. Já na visão da carnavalesca, ainda não está claro, embora ela tenha alguns palpites.

“A gente pensa que o trunfo é alguma coisa, e é sempre outra. Eu acho que primeiro a emoção, por vários motivos. Vai ser a primeira escola a desfilar neste carnaval após esse pesadelo da pandemia. Querendo ou não, acho que as pessoas não vão ficar em casa, vão querer chegar logo para ver. Então, eu acho que essa vai ser a mola do carnaval, o suspiro de alívio graças a Deus. Ainda tem o fato de o Luizinho ter morrido, o enredo que ele escolheu. A Maria Helena que já estava com um lugar no carro para sair direitinho. Eu acho que vai ser uma válvula de escape, esquece tudo e agora começa uma coisa nova”, completa.

Sem dúvidas, a plástica que a escola levará para a avenida é uma das questões mais aguardadas para esse carnaval, afinal, se trata de um belo resgate. Oliveira revela que a Imperatriz virá com volume e muito bem-vestida. “Foi o Arlindo quem trouxe. Depois disso, o Max e a Rosa consagraram o estilo. Em resumo, será a Imperatriz se reencontrando do jeito que ela gosta de se vestir. Vai ter muito babado, pompom, lógico que não de uma forma muito retrô. Não queremos que seja algo anos 90, pelo contrário. Estamos dando uma nova roupagem ao estilo”, diz.

Ao ser questionada sobre as alegorias, Rosa Magalhães acredita que estamos vivendo na era do “carrão”. “Os carros antigamente eram muito pequenos. Eu particularmente acho um exagero, mas está na época, isso passa, vai ficar uns 10 anos assim, depois muda. Você pode marcar uns 10 anos certinho. A coisa muda, isso eu acho que é uma tendência. O que que vem? Não me pergunte. Mas que vai mudar, vai. É natural que mude, tudo vai evoluindo. O importante é que ele seja bem feito, bem cuidado, com segurança. Não pode arriscar a vida das pessoas. Segurança é o item principal”, enfatiza.

Arlindo Rodrigues teve passagens memoráveis na história de outras duas grandes escolas: Mocidade e Salgueiro. Dessa forma, o enredo irá homenagear as duas escolas em setores distintos do desfile. “A parte do Salgueiro nós pegamos a narrativa de personagens até então desconhecidos e que Arlindo dá voz, assim como Xica da Silva, Zumbi dos Palmares. Em seguida vem o setor da Mocidade. Nós não vamos pincelar vários carnavais, ou seja, escolhemos o primeiro campeonato do Arlindo por lá e fizemos um mini desfile com o carnaval de 1979. Aí depois vem a chegada do carnavalesco na Imperatriz que ele consegue o bi e depois o tricampeonato. E daí vamos passeando, quem viver, verá”, explica Oliveira.

A espinha dorsal do desfile começa a se desenvolver com o Theatro Municipal. Na sequência, o próximo setor exalta a força e a negritude do Salgueiro. O terceiro setor consagra o primeiro campeonato da agremiação de Padre Miguel no ano de 1979, “O Descobrimento do Brasil”. Na sequência, a chegada de Rodrigues e a inspiração para uma nova Imperatriz e, por fim, a grande apoteose que ele se tornou não só para a história da escola, mas também para outros carnavais e carnavalescos.

Primeira escola a desfilar na abertura do Grupo Especial em 2022, a Imperatriz Leopoldinense contará com 3000 componentes, cinco alegorias e dois tripés, sem contabilizar o que a comissão de frente utilizará. Além do abre-alas acoplado, serão ao todo 28 alas e dois grupos. Se depender do trabalho competente da carnavalesca e seu assistente, além do trabalho exemplar desenvolvido pela direção, a escola de Ramos retorna com força total na busca pelas primeiras posições do carnaval carioca. Eterna seja!

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