Depois de encantar a Sapucaí no desfile de 2018 e ser apontada como uma das mais fortes postulantes ao título da Série A neste ano, o Cubango tem no talento dos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad um de seus grandes trunfos para realizar o sonho de desfilar no Grupo Especial do carnaval carioca pela primeira vez na história.

Com aporte financeiro da prefeitura de Niterói somada a uma nova gestão que assumiu a escola em meados de 2017, o Cubango veste a camisa do favoritismo, mas com os pés no chão. A dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad recebeu a reportagem do CARNAVALESCO no barracão e não fugiu de perguntas sobre as chances de título.

“Sempre buscamos fazer o melhor possível independente dessa questão de a escola ser ou não favorita. A ajuda da prefeitura de Niterói está chegando em partes. Sem essa ajuda seria bem difícil fazer o carnaval, com apenas R$ 250 mil. Está tudo caminhando bem, mas encontramos algumas dificuldades na busca de materiais. Favoritismo e glamour não nos afeta. A forma como encaramos carnaval é muito mais uma entrega e entender como expressamos a nossa arte. A escola de samba é onde conseguimos nos expressar melhor artisticamente. Quando acontece um bom casamento quem tem a ganhar é a escola”, conta Gabriel Haddad.

Leonardo Bora revela que o enredo ‘Igbá Cubango: a alma das coisas e a arte dos milagres’ é uma espécie de continuação do já apresentado em 2018, quando a escola homenageou o Artur Bispo do Rosário. Bora revela que uma confluência de coincidências encaminhou para a escolha do enredo.

“Diferentemente do que aconteceu com o carnaval do Bispo do Rosário, e com a grande repercussão, nos vimos com uma responsabilidade grande, para superar aquilo que foi feito. Alguns fatos começaram a aparecer, alguns explicáveis. O Vinicius Natal, pesquisador do enredo, tinha essa vontade de fazer algo sobre ex-votos (presente dado pelo fiel ao seu santo de devoção em consagração, renovação ou agradecimento de uma promessa), em um diálogo com o Museu Nacional. Éramos no início reagentes, por se tornar muito denso. Até que houve uma confluência de sonhos. Eu e Natal sonhamos na mesma noite com ex-votos e decidimos realizar algo nessa temática. Somado a isso no dia que fui entregar minha tese de mestrado minha orientador sugeriu um enredo sobre ex-votos, sem saber de nada. Realmente foi um somatório de coincidências incrível. Vários pontos desse enredo dialogam com o do Bispo”, detalha Bora.

Leonardo Bora é paranaense e um dos artistas mais refinados da nova geração do carnaval. Ele revela à nossa reportagem que o Cubango terá cerca de 50 estampas criadas com exclusividade por ele e Gabriel Haddad.

“Teremos estampas criadas por nós. São mais de 50. Desenhamos, tratamos no photoshop e mandamos para produção. Fazemos isso para fugir dessa padronização. Teremos bastante amarração, que é uma característica do ex-voto. Utilizamos objetos realistas, pois não tem como fugir disso. Se o samba fala em pipoca tem de ser pipoca de verdade”, adianta.

Gabriel Haddad revela que durante a pesquisa feita para o enredo encontrou muitos fatos curiosos, mas o principal deles foi o fato de pinturas e objetos africanos serem usados como ex-votos, já que a cultura é mais baseada na religião católica.

“Encontramos uma foto que é um ex-voto africano. É uma questão mais relacionada ao catolicismo, então foi algo surpreendente encontrar algo relacionado às religiões de matriz africana. Tanto que acabamos colocando na logo do enredo. Essa cultura é tipicamente brasileira, de cultuar ex-votos. Não existe na Europa. Lá se entregam placas ou pinturas. O ex-voto mais antigo do Brasil é uma pintura agradecendo a expulsão dos holandeses em Guararapes”.

Entenda o desfile

O Cubango irá desfilar com cerca de 2.000 componentes, 4 alegorias e 20 alas. Leonardo Bora e Gabriel Haddad explicam setor por setor como se dará o desenvolvimento do carnaval do Cubango.

Setor 1: “O Igbá Cubango, o terreiro da escola. Aos pés do morro, os fundamentos da agremiação. Teremos o boneco Babalotim e lembraremos os 40 anos do desfile Afoxé, que deu o tetracampeonato à escola no carnaval de Niterói. Teremos também as cabaças, objetos utilizados para guardar os segredos e fundamentos. Elementos sagrados dos orixás que regem a Cubango.”

Setor 2: “Os objetos para pedir proteção. Cada ala expressa um deles. Balangandãs, ebós, relíquias. Uma estética ameríndia. A alegoria que encerra esse setor vai ter essa mistura bem tropical, nossa matriz religiosa.”

Setor 3: “Falaremos dos ex-votos propriamente ditos. Cada fantasia de ala nesse setor terá um local do Brasil que possui a tradição de peregrinação dos ex-votos. Guararapes, Juazeiro, Penha, Congonhas, Bom Jesus da Lapa. A alegoria que encerra é a dos amuletos que pedimos para os componentes.”

Setor 4: “Os objetos que não necessariamente cumprem as promessas. Falsos objetos que viram dívidas. Explorados a preços exorbitantes para explorar a fé alheia. Quais os limites da religiosidade nas instâncias governamentais? A religiosidade popular segue brotando, ela é incontrolável.”

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