Por Diogo Sampaio

No carnaval de 2020, a Renascer de Jacarepaguá prestará uma homenagem às mulheres que dedicam sua vida a interceder pelos outros, que através da oração ou da benção, curam pessoas e afastam o mal, sem cobrar nada por isso. A partir dessa premissa, a agremiação do Largo do Tanque levará para Marquês de Sapucaí o enredo “Eu que te benzo, Deus que te cura”. Porém, quem espera uma apresentação com uma estética mais rústica, com grande uso da palha e da madeira, ou espera a utilização da cor branca em larga escala, certamente irá se surpreender, pelo menos é o que garante Ney Júnior, carnavalesco da vermelha e branca.

“Não tem nenhuma ala branca na escola. É tudo muito colorido. E o abre-alas ao contrário do que estão pensando, de que virá uma coisa mais branda, o pessoal vai se assustar. É algo muito diferente disso”, afirmou Ney. “Acredito que esse ano, sem falsa modéstia, a nossa entrada é completamente diferente de todas as escolas do grupo. Claro que cada agremiação tem uma temática, cada profissional tem um estilo próprio, mas particularmente na Renascer ela vem totalmente diferente dos últimos cinco anos. O primeiro setor da escola é bem impactante”, adiantou ainda o artista.

Para o site CARNAVALESCO, Ney Júnior revelou que irá adotar diferentes estilos, materiais e cores para cada um dos setores do desfile da Renascer deste ano.

“A gente trabalha com uma estética no abre-alas, trabalha com outra estética totalmente diferente no carro dois, e a gente trabalha com uma terceira no carro três. O primeiro setor vem um pouco mais no farrapo, na pintura artística, na leveza dos elementos e dos tecidos, para dar uma um efeito na entrada da escola. O segundo é algo muito mais artesanal, feito à mão mesmo, com muito recorte, muita colagem, muita florzinha, tudo feito vagarosamente, mas que tem um capricho especial. E o terceiro setor, a gente propõe uma exaltação ao luxo, onde usamos um pouco mais de pedra, um pouco mais de espelho… Então, essas três estéticas faz com que eu consiga desenvolver nesses três caminhos e isso está sendo muito bom para mim”.

Em meio a mais grave e acentuada crise da festa do momo, o artista relatou ter explorado em seu projeto o uso de materiais de baixo custo ou alternativos. Porém, prezou na hora da escolha, os efeitos que os mesmos podem ter ao passar pela Avenida.

“O feltro é um tecido bem bacana de se trabalhar, porque ele consegue te dar uma boa forma para recorte e para aplicação. Trabalhamos muito nesse carnaval também com tecidos leves, como o voil e a juta, que a gente está utilizando no carro dois e principalmente no abre-alas. O vento da Sapucaí, junto com balanço do carro, pode criar um efeito inusitado, de acordo com a proposta da Renascer esse ano. Essa máxima vale tanto para as alegorias, quanto para as fantasias. Toda escola tem materiais muito baratos, mas que impactam pelas cores e que dão uma leveza para o componente, para que aconteça a magia da evolução, para que tudo fique com muito movimento. Temos penas com tecidos mais leves para que dê movimento, temos capas com tecidos mais leves para que quando o componente rode, a capa consiga atravessar a fantasia inteira… São fantasias que as pessoas vão olhar e vão identificar uma coreografia, por exemplo, mas que não são coreografadas. A própria fantasia vai fazer com que o componente se mexa, sem fazer com que ele se mexa tanto. É isso que estou prezando: cores muito vibrantes e muito forte, além de fantasias que deem essa percepção mesmo de movimento na escola inteira. Nossas alegorias estão bem altas, não estão grandes, não estão faraônicas, mas também não é o objetivo, até porque o enredo não pede”, detalhou Ney.

Escolha e desenvolvimento do enredo

Durante a entrevista para o site CARNAVALESCO, Ney Júnior contou como surgiu a ideia de fazer um enredo reverenciando a figura das benzedeiras ou rezadeiras. O artista ainda narrou como foi o processo de pesquisa, elaboração e desenvolvimento da proposta.

“O Salomão (Antônio Carlos Salomão, presidente da Renascer) pediu um enredo de fácil entendimento e também financeiramente um pouco mais barato. Apresentei uma ideia para ele, que foi a das benzedeiras, através de um jantar em que estávamos conversando sobre as possibilidades de enredo. Ele propôs um tema, uma outra pessoa propôs outro e eu propus esse. No momento em que eu falei, o presidente abraçou de pronto, até porque ele já teve uma vivência também com as rezadeiras, parece que a avó dele era rezadeira ou alguma coisa assim. E logo que ele adorou a proposta, me pediu para que eu já começasse a desenvolver o tema. O tema rezadeiras está presente na vida de todas as pessoas. Quando você se depara com o ato da sua mãe te benzer ou quando você sai de casa e sua mãe fala para ir com Deus, ela já está fazendo uma reza pedindo para que você volte bem. Esse enredo é muito pessoal, acho que as pessoas vão se ver muito representadas nas alegorias e nas fantasias pois já passaram, em algum momento da sua vida, por esse tipo de cena”, relatou.

Estreia na Renascer e na Marquês de Sapucaí

Debutando na Série A do carnaval carioca, Ney Júnior tem larga experiência nos desfiles da Intendente Magalhães. Estreou como carnavalesco em 2011, no antigo grupo E, assinando o Arame de Ricardo, escola na qual trabalhou por sete anos consecutivos. Ao longo desse tempo, no currículo, acumulou passagens ainda pela extinta Império da Praça Seca, Unidos de Bangu e Unidos de Lucas. Neste ano, recebeu a oportunidade, através da Renascer de Jacarepaguá, de realizar sua estreia na Marquês de Sapucaí.

“Já estava lutando há oito anos na Intendente Magalhães, quando recebi a ligação da Tatiana (Mello, vice-presidente da escola) pedindo para que eu viesse colaborar na parte artística da escola, o quê de pronto eu aceitei. Sabia das dificuldades, que são imensas, mas a gente tem que começar de alguma forma. E graças a Deus tem pessoas que me ajudam nesse desafio, como Cristiano Plácido que é um cara que está sempre comigo no barracão, o próprio Cláudio (Rocha, pesquisador) e toda a direção. Acho que esse enredo foi algo que abraçou todos os seguimentos para que pudessem nos ajudar no processo de criação do carnaval. Então, a recepção foi muito boa. Claro, como sou uma pessoa nova ainda na escola e na Série A, existe uma resistência, uma desconfiança, mas isso eu tentei ir abolido do meu pensamento e fui trabalhando para que essa desconfiança se tornasse uma confiança no final do processo, e acredito que estou conseguindo fazer isso. No decorrer do desfile, indo tudo bem, eu consigo tirar esse peso das minhas costas. Mas até agora, está super bacana, a direção está me apoiando bastante, os seguimentos como um todo, não tenho nada para reclamar”.

Dificuldades e soluções em meio à crise da folia

Para Ney, a experiência adquirida na Intendente é fundamental para ele hoje conseguir driblar as inúmeras dificuldades enfrentadas pela Renascer e todas as demais escolas da Série A.

“Cinco anos atrás, a Intendente Magalhães em comparação com a Série A, existia uma diferença muito grande. Hoje em dia, a dificuldade é praticamente a mesma nos dois grupos. Trago um pouco dessa herança da transformação, de utilizar materiais e esculturas que já existiam, o que era preto vira branco e o que era branco vira preto em um passe de mágica. Esses truques da Intendente Magalhães a gente afirma muito na Série A, até porque o problema é maior. Na Intendente, o problema é um carro; na Série A são quatro. Portanto, você tem que dar soluções para quatro carros com quatro temáticas diferentes. Então, para conseguir isso, a gente pega um pouco de tudo que a gente já passou, para tentar transformar algo que visualmente não era bonito em algo belo. A Marquês de Sapucaí é de uma visibilidade muito maior do que a Intendente, por isso você tem que fazer algo muito mais caprichado. No entanto, o básico a gente aprende na Intendente Magalhães: a forração da boia, a gente aprende na Intendente Magalhães; esticar o tecido porque não tem mais, a gente aprende na Intendente Magalhães… Isso é uma coisa que só engrandece. Quando você está em um patamar muito acima e cai, você fica meio assustado, mas quando você já vêm de coisas muito piores, você tem um pouco mais de conforto para tentar fazer algo melhor. Por mais que a situação financeira não esteja boa, aqui tem um pouco mais de estrutura do que tudo que já vivi. Isso é bacana, porque eu posso mostrar um pouquinho a mais do meu trabalho, que a Intendente não me permitia”, avalia.

Segundo o artista, essa política de transformação fez com que muitas das estruturas do ano passado fossem reaproveitadas no projeto deste ano. “Tem algumas alegorias que a gente não mudou, que não aconteceram mudanças estruturais nelas: a casinha que era uma coisa, esse ano é outra. A gente tenta acrescentar um projeto com a estrutura que já tem”, disse.

Carnaval para jurado ver?

Por se tratar de seu primeiro ano como carnavalesco na Passarela do Samba, Ney não esconde seu nervosismo e apreensão perante a avaliação dos julgadores. No entanto, destacou que não quer fazer um trabalho apenas voltado para não perder pontos.

“A princípio eu estou muito preocupado com essa questão jurado. Até por conta de ser meu ano de estreia. Você precisa causar uma boa impressão para quem julga o seu trabalho. Mas no segundo tempo desse meu pensamento, procuro não ficar tão preso a isso, porque senão eu vou ter que desfilar com a cartilha dos jurados de baixo do braço e eu não quero isso. Quero mostrar um pouco do meu trabalho. Se for bem aceito, beleza; se não for, paciência, no próximo ano a gente tenta acertar. Acho que o trabalho artístico é entregue para as pessoas e elas recebem da forma que acharem melhor. Claro que o foco é o jurado, até porque a escola depende de notas. Então, o trabalho é direcionado para eles, mas não podemos esquecer o público que está assistindo”, frisou.

Entenda o desfile

Sexta e penúltima escola a se apresentar na primeira noite de desfiles da Série A, a Renascer de Jacarepaguá levará para Marquês de Sapucaí entre 1200 a 1500 componentes, divididos em 21 alas, três alegorias (sendo nenhuma delas acoplada) e um tripé. O carnavalesco Ney Júnior contará a história do enredo “Eu que te benzo, Deus que te cura” em três setores, como explica abaixo:

Setor 1: “O primeiro setor a gente vêm com uma pegada mais lúdica, a gente brinca com algo que remete um pouco mais ao universo dos sonhos, algo mais fantasioso”.

Setor 2: “O segundo setor a gente vai começar a contar a história da formação das rezadeiras, das benzedeiras, das influências que elas receberam para hoje terem os estereótipos que elas têm”.

Setor 3: “O terceiro setor é uma grande homenagem as rezadeiras, aos santos que as ajudam no ato de curar e no ato de benzer. É um setor onde a gente cita algumas doenças que fazem as pessoas procurarem elas. Na última alegoria, representamos a rezadeira como objeto central e um instrumento de cura para as pessoas que estão doentes, que estão carentes, que estão mal-humoradas, que estão depressivas… A gente pega essa figura como a própria pomba da Renascer, que simboliza a libertação”.

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