Por Diogo Sampaio

No carnaval de 2020, a Acadêmicos de Santa Cruz irá levar o público para uma viagem ao Cariri cearense, mais especificamente ao município de Barbalha. Considerado um dos maiores celeiros de cultura popular do sertão nordestino, todos os anos o lugar atrai milhões de pessoas para os quinze dias de festejo a Santo Antônio, padroeiro da cidade.

As celebrações ao santo casamenteiro tem seu início com uma centenária tradição: o dia do Pau da Bandeira. Neste dia, os homens devotos do padroeiro saem de suas casas, às 5h, para buscar o mastro que irá hastear a bandeira do santo, ato este que marca a abertura da festa. Acompanhados por uma multidão de fiéis, esses homens carregam nos ombros o “Pau da Bandeira” em uma peregrinação de 6 km até a frente da Igreja Matriz de Santo Antônio, local em que milhares de pessoas se aglomeram a espera do hasteamento. Um rito que casa o sagrado e o profano.

“Toda cidade no Nordeste é cercada dessas crendices e Barbalha não seria diferente. Eu não conhecia a festa do Pau da Bandeira, e ao ver vídeos incríveis da festa, fiquei surpreso ao constatar que realmente reúne milhões de pessoas. O levantamento do Pau da Bandeira, a seriedade que eles empregam nessas manifestações religiosas em meio a festa, a parte das águas medicinais das fontes da cidade, o soldadinho de Araripe que é um patrimônio deles que é um pássaro, são só algumas das peculiaridades de Barbalha. Essas curiosidades foram enriquecendo a pesquisa e o desenvolvimento do enredo. Então, como a série A é um desfile que envolve no máximo quatro setores, o desafio foi encontrar uma divisão cronológica dentro do roteiro para que nada de especial ficasse de fora ou pelo menos que as principais informações e atrativos da cidade aparecessem com destaque no desfile”, detalhou o carnavalesco Cahê Rodrigues.

Responsável por mais um ano pela assinatura do desfile da verde e branco, o artista relata que a ideia de se falar sobre a cidade de Barbalha surgiu de uma sugestão dada por um amigo do presidente da escola. Com expectativa de contar com patrocínio, a proposta acabou sendo a escolhida.

“Foi um amigo do Zezo (presidente da Santa Cruz), que já conhecia a cidade, que levou essa ideia para ele. Parece que esse amigo já visitou Barbalha e ficou encantado com a história de lá. Então o Zezo foi para o Ceará e rolou uma promessa de patrocínio por parte dos empresários locais. Foi aí que o enredo ganhou mais força, por conta da dificuldade que a gente está atravessando. Não se pode descartar ter um tema patrocinado ou com algum apoio financeiro. A partir disso, comecei a pesquisar, fiz entrevistas com alguns moradores da cidade, e fui descobrindo as curiosidades que me ajudaram na construção a ideia do desfile”, relatou.

Porém, apesar das expectativas, de acordo com Cahê, o aporte financeiro não se cumpriu. No entanto, aconteceram outros tipos de apoios e parcerias. Apesar de não ter chegado a viajar para Barbalha, o carnavalesco diz manter contato quase diário com pessoas de lá, que o auxiliaram de diversas formas.

“Até o momento, ao que parece, não caiu nada de patrocínio, mas eu sei que o presidente está correndo atrás. Já a parte mais institucional, eu posso afirmar que funcionou muito. Estou tendo um super apoio de um jornalista cearense chamado Marcelo Fraga. Ele é apaixonado por Barbalha e tem me ajudado muito nos contatos. Graças a isso, vamos conseguir distribuir quase 10 mil mini-rapaduras vindas de Barbalho no desfile, pois lá ainda existem os engenhos de rapadura, funcionando de uma forma bastante artesanal. Teremos também o momento de distribuição de cordéis, porque um artista barbalhense está fazendo um cordel que conta a história do samba enredo. Então, são essas parcerias que estamos fazendo com a cidade de Barbalha. Tem um outro artista, que fez uma xilogravura que estará presente no terceiro carro da escola. A solteirona Luna, que é uma figura extremamente popular na cidade, vai vir de lá para distribuir kits de chá e tudo mais. Essas crendices populares que envolvem a festa do Pau da Bandeira, isso tudo vai estar presente no desfile da Santa Cruz”, adiantou.

Dificuldades e soluções em meio ao cenário de crise

Além da ausência de patrocínio, o corte completo do repasse de verbas da Prefeitura do Rio tem afetado muito a Santa Cruz e as demais agremiações que desfilam pela Série A. Não bastasse a falta de dinheiro, estas escolas precisam lidar diariamente também com a carência estrutural, por exemplo. Por esse motivo, segundo o carnavalesco, se faz ainda mais necessário trabalhar com a criatividade.

“É cada vez mais difícil fazer carnaval sem dinheiro, principalmente na série A, porque além de não ter dinheiro, também não há estrutura. Então, até aquilo que poderia ser reciclado de um ano para o outro, acaba sendo perdido por causa da falta de um espaço para manter aquilo que foi construído. Realmente é muito difícil, não adianta fingir o contrário, a situação é caótica. Estou fazendo carnaval mais um ano com uma limitação gigante de material, porque não tem dinheiro para comprar nada. Nessas horas, você deve usar e abusar da criatividade”, relatou.

A saída encontrada por Cahê Rodrigues para conseguir confeccionar o carnaval da Santa Cruz foi novamente apostar no uso de materiais atípicos e alternativos ao espetáculo. Segundo artista, o enredo de temática nordestina também o permitiu utilizar de elementos característicos da região que tem baixo custo, como o chitão, o fuxico e o retalho.

“Tudo parte do princípio da boa vontade. Quando você tem paixão pelo que faz, dá pra pensar calmamente no que se pode fazer com o pouco material disponível. Então, a minha visão de carnaval dentro da Santa Cruz foi criar um projeto desde o início sabendo dessas dificuldades. É uma temática nordestina, então procurei criar um Nordeste um pouco diferente do que as pessoas costumam levar, em tons terrosos e toda aquela coisa. Fui pro caminho mais colorido e leve. É uma escola que não tem muito esplendor. Não usei pena porque não tínhamos condições. Evitei ao máximo armações de arame e criei figurinos para uma reprodução mais próxima do protótipo. Procurei usar materiais baratos como o chitão e fui pro caminho do TNT, em cores que te dão um efeito visual interessante. Também estou usando muito material reciclado do ano passado, isso ajudou na composição, pois o nordeste tem essa coisa do fuxico e do retalho”, declarou.

Questionado se o colorido que pretende levar para Avenida segue o mesmo estilo do trabalho feito por ele na Imperatriz de 2015, com o enredo “Axé-Nkenda – Um ritual de liberdade – E que a voz da liberdade seja sempre a nossa voz”, Cahê afirma que não. Segundo ele, naquela ocasião houve o predomínio das cores mais cítricas, enquanto agora haverá maior emprego das cores e tons da própria Santa Cruz.

“A minha áfrica pop da Imperatriz foi justamente tentando fugi um pouco do óbvio. Eu acho que com bem menos recursos, estou conseguindo criar o meu nordeste na Santa Cruz. Eu brinco muito com o verde limão que além de ser a cor da escola, é uma cor que recorta a plástica do desfile em vários momentos. Posso garantir que será algo bem colorido, com uma dominância do verde, dourado e branco da escola. Não é um carnaval neon de cores fluorescentes o tempo todo”, comparou.

Mudanças no regulamento

Durante o bate-papo com a reportagem do site CARNAVALESCO, Cahê Rodrigues comentou acerca das mudanças no regulamento da Série A. Entre as novidades para este carnaval, está a diminuição do número máximo de alegorias: de quatro para três. Para o artista, no atual cenário de crise financeira da festa, o enxugamento no tamanho do desfile é algo positivo e que beneficia todas as agremiações.

“Para todos foi melhor. Dentro das dificuldades existentes, ter um carro a menos facilita muito em termos de investimento de custos e mão de obra. No meu caso, diminuiu e não diminuiu. Ano passado, meu abre-alas não era acoplado, diferentemente desse ano. Então, na verdade, eu continuo com quatro alegorias. Além dos meus quarto carros, eu tenho ainda um tripé. Ou seja, em termos de volume, continua a mesma coisa do último carnaval, só que a escola está mais compactada em tamanho, pelo número de alas reduzidas. E fizemos também alguns ajustes na cabeça, na posição das baianas, na ala dos compositores que vem concentrada, ao invés de solta como em anos anteriores”, contou.

Um carnaval maior e melhor que o passado

Em seu retorno para a Santa Cruz no último carnaval, Cahê Rodrigues assinou o enredo “Ruth de Souza – Senhora liberdade. Abre as asas sobre nós!” e alcançou um quinto lugar, a melhor colocação da escola na Série A desde 2011. Para o carnavalesco, um feito que deve ser superado pelo desfile deste ano.

“Acho que a Santa Cruz precisa entender e acordar para a potência de escola que é. Meu primeiro contato com Santa Cruz foi em 1995, quando conheci uma super escola e essa escola adormeceu. O carnaval em homenagem a dona Ruth de Souza trouxe de volta o brilho para aquela comunidade. O povo acordou, começou a enxergar que a escola tem potencial, tanto que percebo hoje uma quadra mais feliz e disposta a ir para Avenida brigar por uma boa colocação. É claro que o quinto lugar traz uma responsabilidade maior e a expectativa é de uma posição melhor que a do ano passado, apesar do grupo esse ano estar mais forte. Porém, temos um grande enredo e um ótimo samba, então a escola está com bem mais estrutura que no último carnaval”, avaliou.

E mesmo com as dificuldades financeiras, Cahê promete fazer um carnaval maior e melhor, plasticamente, que o último. Entre as novidades, está o uso de acoplamento no abre-alas, além da aposta na movimentação de escultura, através do trabalho dos profissionais oriundos do Festival de Parintins.

“A Santa Cruz tem uma estrutura de carros grandes, então isso já da um volume bacana de alegoria. Eu estou mantendo as bases do ano passado, mas claro que mexendo em algumas coisas: modifiquei algumas frentes, temos um abre-alas acoplado, além de ter mais movimentação nos carros do que no último carnaval. Em termos alegóricos, está bem melhor do que foi em 2019”, garantiu.

O artista ainda revelou que tem na abertura do desfile a sua grande aposta para 2020. Para ele, a entrada, junto com os quesitos de chão, são os grandes trunfos da Santa Cruz.

“A escola está bem motivada, o samba é muito bom, o chão da escola está muito mais forte , vejo uma comunidade mais presente nos ensaios. Acredito muito na nossa abertura também. Barbalha é conhecida como a terra dos verdes canaviais, então a beleza dessas terras vão levar um pouco de encantamento para a abertura da Santa Cruz. E com a bênção de Santo Antônio, que é o padroeiro da cidade”, assegurou.

Entenda o desfile

Quarta escola a se apresentar no sábado de carnaval, a Santa Cruz irá para Marquês de Sapucaí em 2020 com cerca de 1700 componentes, além de 21 alas, três alegorias (sendo o abre-alas acoplado) e um elemento cenográfico. O enredo “Santa Cruz de Barbalha: Um Conto Popular no Cariri Cearense” será contado pela agremiação ao longo de três setores, como explica o carnavalesco Cahê Rodrigues:

Setor 1: “O primeiro setor é a beleza da terra dos verdes canaviais. A gente vai falar do início da construção da cidade, da economia, dos engenhos de rapadura, então é um setor mais voltado para a parte econômica e histórica de Barbalha”.

Setor 2: “No segundo momento do desfile, falamos sobre a festa do Pau da Bandeira, que é o fogo que movimenta Barbalha. É o folclore, as danças, as crendices populares… Todo esse universo que é muito forte para o povo nordestino e que estará presente no segundo setor”.

Setor 3: “E o terceiro momento é quando a Santa Cruz te convida à ir para Barbalha. A sinopse brinca com isso:‘Santa Cruz de Barbalha’. Então, é como se a escola te convidasse para conhecer as maravilhas dessa cidade. Do Sambódromo à terra de Santo Antônio”.

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