O polêmico enredo da escola de samba do Morro do Borel é uma mistura de irreverência, machismo, catarse e até inocência. A Unidos da Tijuca no seu primeiro carnaval após a redemocratização parece ter incorporado os ventos de liberdade que que sopravam pelo país a fora e levou para Marquês de Sapucaí um carnaval que parecia ser um grito geral de tudo é permitido.

Antes de tudo temos que contextualizar o momento da época. Após 21 anos de ditadura e repressão muitas escolas (merecidamente ou não) incorporaram o “a moral e os bons costumes” implementadas pelo período militar. Muitas se tornaram adesistas ao sistema e cantaram pela passarela a fora enredos chamados oficiais como: Educação para o desenvolvimento (1973), Brasil ano 2000 (1974) e o pesadíssimo O Grande Decênio (1975); todos protagonizados pela Beija-Flor. E outros nem tão adesistas, mas claramente incorporando componentes pouco carnavalescos como: De Nonô a JK (1981) e Os modernos Bandeirantes (1971) trazidos pela Mangueira.

Quebrando um elo da corrente oficial as escolas de samba, que nada mais são reflexo da sociedade e suas transformações, o ano de 1986 desceu na Sapucaí de uma forma mais leve enredos que já não tratavam de exaltar feitos de heróis de ocasião e plataformas governamentais. Enredos como “Caymmi Mostra ao Mundo o que a Bahia e a Mangueira Tem”, “Assombrações” União da Ilha e até questionamentos como “Brazil, não seremos Jamais ou Seremos? ” Da Caprichosos de Pilares.

É dentro desse contexto que a Unidos da Tijuca se apresenta com “Cama, Mesa e Banho de Gato”, do carnavalesco Wany Araújo. O início do samba a escola já mostra a que veio e diz: “o homem orgulhoso como o quê, não se sente feliz com a sua matriz (não, não, não) monta uma filial, mostra os pecados capitais no carnaval”. E realmente mostrou. Os componentes da escola mais aproveitando o tema jocoso trazido pela escola parecem desfilar em um grande bloco de carnaval de rua. Passistas soltos sambavam, pulavam, se abraçavam em clima de tudo é permitido. A comissão de frente trazia componentes fantasiados de gatos, dando uma impressão singular de uma fábula inocente, quase infantil, mas na verdade a história era outra, bem mais polêmica, politicamente incorreta e de vertente controversa olhando aos dias de hoje.

Lançando os olhos sobre o que foi a Tijuca 1986 o samba segue na sua toada de ser um elemento crucial para o que realmente expõe o pensamento comum de uma sociedade que ali na passarela não se esconde atrás de falsas dialéticas. A Tijuca veio como franca atiradora de uma escola que até ali não parecia se importar muito não estar inserida no grupo das grandes, talvez isso tenha ajudado no relaxamento de mostrar um enredo que não se preocupava em esconder isso ou aquilo que poderia ou não chocar o júri.

Com uma sinceridade própria o samba diz em outro trecho: “A hora é essa vamos e admitir, uma só mulher é pouco, deixa o homem no sufoco com muitas que andam por aí. O Arroz com feijão lá de casa é bom, mas o cozido da vizinha é melhor (é melhor)”.

Pronto, está aí a mensagem do enredo e pouco importava o que os outros iam dizer. A Tijuca faz uma grande convocação, em rede nacional, o que grande parte daquela sociedade reprimida pensava lá no fundo, mas sem expor, e esboçando aquele sorrido constrangido de canto de boca no expectador que estava assistindo em casa com a família, até as gargalhadas nas mesas de botequins, onde sempre foi visto como um local de homens e machista, até então. Essa é a graça do Carnaval, essa é a conexão que as escolas de samba tinham com a sociedade em plena era de ouro do samba-enredo.

Passados 35 anos desse desfile a gente pensa no como ele seria recebido hoje pela sociedade? Que escola hoje se propõe a abrir uma discussão dessas na avenida? Não faço aqui juízo de valor sobre a qualidade da obra e o gosto sobre o tema e da forma como foi abordado, o papel aqui é abrir luz a história do carnaval e suas peculiaridades.

Era outra sociedade, havia uma inocência de esperança, liberdade, e eu acho que nada mais carnavalesco que essa abordagem, esse tema. Goste ou não a Tijuca fez sua cama, mesa, banho de gato, passou brincando, teve problemas pagou o preço e foi rebaixada. Seria esse um recado do júri ao tema? Talvez, mas o recado estava dado e a escola deu uma grande banana para o resultadismo mostrando seu desfile dionisíaco e sem amarras. Isso é Carnaval!

Letra do samba Unidos da Tijuca em 1986

O homem orgulhoso como quê
Não se sente feliz com a sua matriz
Montou uma filial
Mostra os pecados capitais no carnaval
A hora é essa e vamos admitir
Uma só mulher é pouco
Deixa o homem no sufoco
Com tantas que andam por aí
O arroz com feijão
Lá de casa é bom
Mas o cozido da vizinha é melhor
Dizem que eu sou machista
Com pinta de egoísta
Polígamo conquistador
Mas isso vem do tempo do vovô
Lá vai o trouxa
Crente que está numa boa
Mas não sabe que a patroa
Está com o Ricardão
E sua filha tem fama de sapatão

Tem piranha no almoço
Tem virado no jantar
Pra quem tem fome
Qualquer prato é caviar

Vida, palco desses acontecimentos
Desfilando pelo tempo
Hoje eu quero me banhar
No prazer mais prolongado
Que o banho de gato dá
Gingam cabrochas e ritmistas
Passistas e vigaristas
Artistas de revista e TV
Que não se importam
Com o que vocês vão dizer

Bota o prato na mesa
Tudo que vier eu traço
Prepare a cama
Que hoje tem banho da gato

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