O som único que vem da raiz mangueirense, criado pela turma da “Tem que respeitar meu tamborim”, foi reverenciado na noite desta terça-feira, no Espaço Itáu de Cinema, na Zona Sul do Rio de Janeiro, com a pré-estreia do filme “Mangueira em dois tempos”, da diretora Ana Maria Magalhães. Em entrevista ao site CARNAVALESCO, a cineasta falou da obra. O filme estreia nos cinemas de todo o país no dia 5 de agosto.

Fotos: Rennan Laurente

“A principal mensagem do filme é a da cultura, da Mangueira, da alegria e do êxito dos programas sociais. O programa Mangueira do Amanhã formou o mestre Wesley, ajudou crianças, ensinou o samba, e a preservação da nossa cultura. A base da cultura não está no asfalto, ela está no morro. É muito importante que se preserve essa cultura do samba, do funk e do que se produz ali”.

Muito emocionado após a sessão do filme, mestre Wesley garantiu que o samba é fundamental na sua vida pessoal e profissional. “A Mangueira e o samba representam tudo na minha vida. Quando meu pai me levou para Mangueira do Amanhã em 1987 ele era presidente da bateria e traficante. Me levou para quadra para me tirar do caminho da criminalidade. Eu acho que me daria um caminho diferente e deu. Me tornei mestre da Mangueira do Amanhã em 99/2000, ritmista da escola principal e hoje sou mestre de bateria da Mangueira. Era meu sonho. Estou realizado e muito feliz. Já me emocionei demais com o filme. A minha segunda pele é Mangueira e carnaval. Sem isso não vivo. A pandemia mostrou isso pra mim. Quem assistir o filme não vai se arrepender”.

A diretora Ana Maria Magalhães

‘O samba transforma a realidade social’

Mestre Wesley revelou ao CARNAVALESCO que vai tatuar o título de 2019 para simbolizar o momento histórico eternamente. “A responsabilidade no comando da bateria começou quando recebi o convite de 2018 para 2019. Os diretores estavam fazendo um ótimo trabalho. Fiz um trabalho de formiguinha e depois de 18 anos conseguimos resgatar a nota máxima e veio o campeonato em 2019. Não foi diferente em 2020. O desfile de 2019 subiu minha carreira. Já era conhecido como tocador de repique e esse título é de um desfile histórico. Foi tão importante que vou tatuar o carnaval de 2019 no meu corpo”.

Para a diretora Ana Maria Magalhães, o filme não poderia ser lançado em um momento mais especial do que o vivido pelo povo brasileiro. “Nós estamos em um momento de retrocesso. Esse filme tinha que sair agora. Eu não conseguia porque não saia antes, fique dez anos, mas era importante que fosse feito, agora, é o resgate da cultura. O samba transforma a realidade social. Da um ofício, alegria e tem a realização de felicidade. O Wesley adora o que faz e isso é muito importante”.

Wesley falou sobre o relacionamento com a diretoria e a importância de Ivo Meirelles em sua vida. “Ela me conheceu quando eu tinha dez para 11 anos. Hoje, eu estou com 42 anos. A diferença é muito grande. A vida ensina a gente. Tomamos muito porrada. Minha filha mudou demais minha vida. Tenho dois filhos (ela de 6 e um de 18). O Wesley hoje é mais pensativo, cabeça, família e mais amigo. O Ivo representa minha vida musical. Ele faz parte 101% da minha história. Tenho o Ivo como pai. Quando eu perdi o meu, ele me pegou para essa vida musical. É muito importante na minha vida”.

Comunidade representada no cinema

Alyson Vieira, de 17 anos, há quatro anos na bateria da Mangueira, assistiu a sessão do filme. Nascido e criado no morro da Mangueira, ele disse que mestre Wesley é seu espelho. “Ele passa muito da experiência que tem para gente. Nunca teve apenas um grupinho show, sempre utilizou todo mundo da bateria. Minha família é toda do samba, meu tio Marrom já foi mestre e ele sempre me preparou para entrar na bateria. A nossa bateria é única, nenhuma escola consegue tocar nosso ritmo”, disse.

Marli Senra, que desfila há 54 anos de Mangueira, começou na escola ala da crianças com Dona Neuma e hoje desfila na ala das baianas. Ao site CARNAVALESCO, ela falou do momento de ver a Mangueira e sua bateria na tela do cinema. “Desde que estou na Mangueira vivo uma experiência boa. Muita coisa mudou desde que entrei. Antigamente, era mais samba. O samba precisa lutar muito para dar cultura para o jovem. O governo não ajuda nossas escolas de samba e a formação cultural das comunidades”.

Edvaldo Júnior, 37 anos, presidente Associação de Moradores do Complexo da Mangueira, ressaltou o samba como transformador social. “O trabalho da Mangueira dentro da comunidade é maravilhoso. Ele muda a vida de muitos jovens. Esse filme mostra o orgulho da nossa comunidade sendo mostrada para todo mundo, através da tela do cinema, nos da orgulho demais”.

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