Se ser comunidade é uma questão de responsabilidade social, a Grande Rio tirou nota máxima nesse quesito. A escola de Duque de Caxias arregaçou as mangas e montou um programa de ajuda aos que foram afetados economicamente pela pandemia do novo Coronavírus. Com cautela e confiante em um carnaval sanitariamente seguro, quando for possível, o próximo desfile está sendo organizado com o projeto artístico já pronto e uma escolha de samba-enredo em andamento.

Qual, afinal, é o papel de uma escola de samba mediante a sua comunidade? Muita gente, que vive o carnaval ou não, já fez essa pergunta em alguma roda de conversa. Talvez, uma resposta objetiva fuja a quem tenta responder. Por isso, às vezes é melhor se basear em situações práticas para esclarecer tal dúvida. No mundo encantado das escolas de samba, não faltam histórias que definem o papel delas, e, a partir daqui o site CARNAVALESCO vai contar mais uma.

Eram meados de março e o vice-campeonato ainda estava sendo comemorado lá pelas bandas de Caxias. Embora, a Grande Rio estivesse com as suas atividades paradas, como faz todos os anos por 30 dias após o carnaval, o sentimento era de orgulho entre aqueles que amargaram dois resultados ruins consecutivos. De repente, a alegria virou apreensão. Havia um vírus que chegou para virar o carnaval 2021 de cabeça para baixo, a ponto de tirar ele do verão e ser realizado possivelmente no inverno. Internamente, um ponto de interrogação e um pouco de espera, devidas as informações desencontradas. Fora da quadra, uma comunidade necessitada.

Giram presidentes, curvam-se as rainhas e os ogans batuqueiros

A primeira dúvida que pairava pela escola era nas equipes. A diretoria, logo sanou essa questão anunciando que toda equipe seria mantida, sem que seus vencimentos fossem afetados. O anúncio trouxe tranquilidade para quem havia perdido a sua renda com o fechamento do comércio e parada das atividades, ainda que a cidade de Caxias tenha relutado em estabelecer alguma medida de isolamento no comércio e nos serviços.

Como o fechamento das escolas de samba aconteceu enquanto a Grande Rio normalmente está parada, a diretoria teve tempo para se preparar. Com o passar do tempo, foi possível verificar a situação da comunidade e realizar um plano de ajuda. A tricolor fez uma grandiosa ação de distribuição de cestas básicas e não se limitou a quem desfila pela escola. As famílias caxienses, que passavam por dificuldades, também foram ajudadas, conforme a necessidade de cada um.

“É um programa que ainda continua. Agora, no Natal, fizemos de novo, a bateria toda recebeu cestas básicas. Então, é uma grande ação que ajuda as pessoas que estão passando por problemas financeiros. A distribuição das cestas foi feita de acordo com a necessidade da comunidade. Intensificamos quando algumas pessoas ficaram completamente sem renda e depois, fomos avaliando as condições de cada um”, contou Thiago Monteiro, diretor de carnaval da Grande Rio.

Assim como a maioria dos profissionais, durante a pandemia, mestre Fafá também enfrentou cancelamento de seus compromissos. Mas, ele não cancelou a vontade de ajudar. Também ajudou na arrecadação de cestas básicas, que seriam distribuídas para a comunidade e, pessoalmente, foi entregar algumas àqueles que não poderiam ir até o local de distribuição.

“Às vezes, eu chegava à quadra 8h e saía 22h, levando cestas básicas dentro do meu carro, para levar até as casas das pessoas. Era estar fazendo um pouco por quem sempre faz muito por nós. Por quem se dedica e tem amor pela escola. Ter compaixão, era o mínimo que a gente poderia fazer”, falou o comandante da Invocada.

Sobre as rainhas, muita ajuda e uma ação de natal. Sim, as rainhas: a atual Paolla Oliveira e Ana Furtado, que um dia reinou na frente da bateria da Grande Rio. Em vídeo, Paolla e Ana convocaram os ritmistas para uma surpresa que aconteceria no barracão. O presente: as duas doaram juntas doaram 280 cestas básicas para a Invocada.

Funcionário tranquilo é qualidade de vida

A tranquilidade chegou para os profissionais da Grande Rio, quando foi feito o anúncio de que seriam mantidos os pagamentos acordados com toda a equipe. Embora o susto tenha sido grande, o impacto foi muito mais de projetos que econômicos, em alguns. O mestre Fafá, por exemplo, teve viagens e trabalhos em outros países cancelados. Um projeto para revelar novos ritmistas também foi deixado para depois. Com todas as atividades paradas, ele foi se dedicar a arrecadar mantimentos para os mais necessitados.

“Essa pandemia prejudicou muito o meu trabalho. A gente estava em um projeto bem bacana de revelar ritmistas da escolinha. A bateria estava bem equalizada e, para mim, foi bem prejudicial porque eu gostava muito de ensaiar, de me dedicar. Um dos projetos profissionais que eu deixei de lado foi o de dar aulas em outros países. Esse projeto começou na França, no ano passado, e conseguimos estender para o México e alguns estados daqui do Brasil, que também tínhamos fechado”, disse Fafá.

Já o cantor Evandro Malandro aproveitou a quarentena para se reinventar. Sendo um dos destaques do carnaval 2020 e com a situação financeira resolvida pela escola, ele não quis saber de ficar no ócio e se dedicou a cursos online para se profissionalizar ainda mais. Com direito a aulas de inglês e espanhol, o futuro poliglota da Sapucaí contou quais projetos esteve desenvolvendo.

“Pelo fato de eu ser músico, tanto no pessoal, quanto no profissional, eu me apeguei aos meus cursos online, aos meus trabalhos e estudos com música. Comecei a fazer muita aula online e aulas de edição de vídeos e áudio. Embora eu já trabalhe com estúdio, há pelo menos 11 anos, reatei um curso de violão de sete cordas. A melhor forma para passar esse momento, foi continuar a me profissionalizar. O profissional do carnaval, o músico, não pode parar”, explicou o intérprete.

Além dos cursos, apesar de não ter eventos com público, Malandro teve compromissos em lives organizadas pelas escolas de samba e também particulares, mas não pode contar com seu time do carro de som completo. Lamentando a ausência dos colegas, ele exalta o trabalho dos músicos que o auxiliam:

“Por mais que não tenham eventos, uma grande evolução que acontecem nesse tempo de pandemia, foram as lives. E nem sempre era o mesmo grupo do carro de som. Então, fizemos muitas reuniões online para organizar repertório. A gente conseguiu manter a Grande Rio em um ponto bacana de excelência e a gente não pode perder isso”, contou Malando.

A volta da Invocada e a explosão da peste

Seguindo as restrições de espaço e os protocolos de segurança sanitária, imaginou-se que as atividades paradas poderiam voltar aos poucos. A Grande Rio pensou que seria possível retomar os ensaios da bateria. Afinal, eram 9 meses sem uma batucada em Caxias e todos estavam com saudade. Mas, como se via diariamente, o vírus não foi embora e nem muitas pessoas permitiram que isso fosse possível. Em novembro, a Invocada bateria voltou aos ensaios, a princípio diariamente e depois seriam a cada 15 dias. Mas, com a explosão de casos de Covid-19 e a falta de leitos em hospitais, a direção da escola e o mestre Fafá decidiram recuar.

“A pandemia estava um pouco mais calma, então a gente fez uma reunião e definimos retomar. Como o número de casos aumentou, agora em dezembro, foi dada uma parada de novo. Fizemos esses ensaios para tentar movimentar um pouco. Nos preocupamos com distanciamento, para todos terem segurança. E agora, a gente dá uma parada”, explicou Thiago Monteiro, diretor de carnaval.

Os ensaios eram preparados com um protocolo de distanciamento, limpeza dos instrumentos e o uso de máscara obrigatório. Fafá chamou atenção para o quanto o desempenho dos ritmistas nos primeiros ensaios estava afetado, mas minimizou a questão do distanciamento em uma bateria de escola de samba que toca com os componentes bem juntos.

“Eu costumo dizer que a bateria é como se fosse um time de futebol: quanto mais o jogador entra em campo, mais ele desenvolve técnica, mais ele tem preparo e mais ele está condicionado a fazer aquilo. E ritmista é a mesma coisa: quanto mais ensaio tem, mais você leva a perfeição e consegue atingir o bom desempenho. Sobre o distanciamento, tem uma diferença sim. Mas, quando a gente começa mesmo os nossos ensaios, a gente faz com os naipes separados, para todo mundo se ouvir e entender a equalização que a gente quer. Acabou que esse distanciamento não causou tanto efeito negativo”, falou o mestre.

A Grande Rio espera carnaval em paz

Após dois resultados ruins no carnaval, sendo um desastroso 2018, a Grande Rio desfilou em 2020 deixando qualquer estresse para trás. Após o vice-campeonato e organizar um carnaval barato, aos olhos da escola, planejar 2021 ficou um pouco mais fácil. Organizada, a escola tem o projeto artístico pronto e aguarda a definição de datas para abrir o barracão e começar a montagem das alegorias e fantasias.

“Uma coisa é você tentar manter a equipe, com todo esforço, outra coisa é você custear a produção de um desfile. Então, a gente só vai poder começar a meter a mão na massa, efetivamente, quando tiver algo mais concreto de ter desfile em julho ou não. A Liesa tem uma responsabilidade muito grande. Eu tenho a certeza de que ninguém vai agendar uma festa sem saber se terá”, disse Thiago Monteiro.

Até saber quando poderá abrir o barracão, a Grande Rio tem o desafio de escolher o samba. Nesse tempo também, acontecerá o que seria o carnaval de fevereiro. Em meio a perguntas de se a tricolor fará algo na data, Thiago Monteiro explica:

“A gente ainda precisa ver como vai estar a pandemia em fevereiro. Uma coisa que a pandemia nos ensinou é que não dá para fazer planejamento a longo prazo. Tem que fazer os planejamentos de tarefas, para a gente conseguir realizar algo. É claro que a gente não quer deixar passa em branco, mas tem que ver as possibilidades e ainda não podemos determinar nada. A gente está em uma incerteza muito grande”, falou o diretor de carnaval.

Sobre a volta, Evandro Malandro sonha este dia e tranquiliza os torcedores e simpatizantes sobre o processo de planejamento do carnaval. Segundo ele, tudo está sendo organizado de forma online, sem prejuízos para a desorganização dos trabalhos. Ao falar da integração do carro de som com a bateria, fundamental para o desempenho do samba-enredo, ele fala:

“É claro que a bateria depende de um tempo um pouco maior. Mas, o Fafá é um cara muito bom e está fazendo reuniões online para encontrar a melhor forma de lidar com isso. E da mesma forma, eu vou seguindo aqui. O pessoal do carro de som tem um grupo no WhatsApp e a gente vai se falando também”, falou Evandro.

Com calma, esperando a vacina e prometendo muita garra, o Acadêmicos do Grande Rio prepara seu carnaval. Com o enredo “Fala, Majeté: Sete Chaves de Exu”, desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, a escola será, até então, a quinta a desfilar na segunda-feira do novo carnaval, 12 de julho.

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