O samba da Mocidade Independente de Padre Miguel para o Carnaval 2020 é um dos mais tocantes do ano na ótima safra do Grupo Especial. Em entrevista concedida ao site CARNAVALESCO, o compositor e intérprete Igor Vianna, filho do lendário Ney Vianna, contou à nossa reportagem que a trajetória de vida de Elza Soares serviu de norte inspirador na hora de construir a obra.

“Tenho dois trechos que adoro: ‘para a preta não chorar’ e ‘se a vida é uma aquarela’. Nas conversas com a Sandra de Sá, ela contava trechos tristes da vida da Elza. Daí que saíram esses trechos e o início da segunda parte da obra. Ela contava de passagens da Elza na casa do Cazuza. Um momento muito difícil da vida dela, para você ver como até os grandes astros passam por dificuldades”, explica.

Igor confirma para o CARNAVALESCO que em um primeiro momento sua parceria tinha a intenção de fazer um samba que fugisse ao lugar comum das obras que homenageiam cantores e figuras da MPB o fazer uma seleção de suas famosas canções. Entretanto, ele revela que acabaram seguindo este norte e conta como foi a participação da cantora Sandra de Sá.

“Primeiro a gente queria fugir de todas as músicas dela, por saber que muitos viriam com esse recurso. De início tentamos buscar um outro caminho. Confesso que não conseguimos, por conta do lata d’água na cabeça. Decidimos que iríamos construir na terceira pessoa. Quando percebemos o samba já estava construído, após três reuniões na casa da Sandra de Sá. Ela participou ativamente de tudo, com ideias”.

Igor é de linhagem independente. Filho de Nei Vianna, intérprete oficial da escola no ano de seus primeiros campeonatos, em 1979 e 1985, admite que tinha o sonho de repetir os passos do pai na Mocidade. Reconhece, porém, que a maneira de contribuir hoje com sua escola é compondo.

“É a minha escola de coração, não escondo de ninguém isso, sempre sonhei e participar da escola. Há três anos decidi mudar a minha cabeça e busquei estar na escola de outra forma, diferente daquilo que sonhei. Nos últimos anos tenho participado das disputas. É uma emoção que será difícil eu conseguir ter outra igual”, destaca.

O poeta desconstrói a tese de que uma vitória em uma disputa rende exorbitantes rendimentos financeiros aos compositores. E sente orgulho de afirmar que vive hoje do carnaval e da música.

“Primeiro é pagar as contas do samba que são pesadas. O que sobrar a gente gasta um pouco com sabedoria, tentar terminar um pedacinho da casa, guardar mais um pedaço para as próximas disputas. Eu sou um operário do samba e do carnaval. A minha renda vem toda do samba, como cantor, como compositor. Sonho ter o meu carro, ainda não tenho essa condição”.

Militante do samba-enredo, Vianna tem um grupo musical voltado para o gênero. O intérprete atual da Unidos de Bangu se posiciona favorável às disputas de samba e defende que elas jamais deixem de existir.

“Eu seria mentiroso se não dissesse que foi difícil. Mas, o processo alternativo pensado pela Mocidade, mais cedo facilitou muito o nosso trabalho, os ingressos eram muito e conta, quando tínhamos que pagar. A Mocidade não nos obrigava a consumir dentro da quadra. Tudo isso facilitou. O que me faz continuar nisso é acreditar que disputa de samba não pode acabar”, finaliza.

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