João Vitor Araújo, único carnavalesco negro no Grupo Especial do Rio de Janeiro, recebeu a informação que foi desligado da equipe da São Clemente para o próximo carnaval. No Dia da Consciência Negra, João Vitor, que é um dos grandes artistas da nova geração do carnaval, fez um post falando da saída.

“Dos muitos sonhos que tenho, e estou podendo realizar poucos deles, por hora, recebi hoje a notícia que infelizmente a partir de agora não sonharei junto com a São Clemente. Escola exímia na arte de falar aquilo que o povo quer ouvir. Eu ouvi e compreendi os motivos e desejo à agremiação toda sorte do mundo e que os caminhos dela sejam os caminhos do Ubuntu”, escreveu João.

Em uma publicação nas suas redes sociais, a São Clemente anunciou que Tiago Martins seguirá como carnavalesco solo. “Reorganizamos nosso planejamento e entendemos como será a melhor forma de nos portarmos mediante aos impactos gerados. Reduzimos custos, mas mantendo a certeza que será uma jornada de muito trabalho e sucesso. A São Clemente segue forte e prestes a escrever novas páginas de sucesso em sua trajetória com uma equipe determinada a marcar seu nome na história”, diz o post da escola.

A São Clemente definiu também o cronograma do concurso de samba-enredo para o próximo carnaval. A sinopse será divulgada no dia 02 de dezembro através das redes sociais da agremiação. As parcerias terão duas datas para tirarem as dúvidas de suas composições. A inscrição e entrega dos sambas acontecerá no dia 11 de janeiro de 2021. A apresentação e final de samba ocorrerão em formato de live. Mais informações e regulamento completo serão divulgados na próxima semana.

Veja abaixo a íntegra do post de João Vitor

“Eu sempre pensei na coletividade e, por isso, amo fazer carnaval. Sou um artista criado no chão do barracão e minha maior faculdade foi a vida, foram as pessoas com quem me encontrei por esse caminho com quem aprendi para cheguei até onde estou.

Esse caminho me apresentou curvas muito sinuosas. Fico pensando sempre que, se eu não pensasse nos que caminharam comigo, duvido que teria passado da primeira delas. Este caminho é o caminho de tantos irmãos e irmãs que não tiveram a mesma sorte que eu, a sorte do lar, da família que, mesmo nas derrapadas deste caminho, não me deixou andar para trás.

Neste dia da tal “consciência negra”, estamos tão feridos com a morte absurda que nos agride todos os dias mas que, na última madrugada, teve um simbolismo maior. Foi um sinal para nos colocar em nossos “devidos lugares”? Se foi, entendam, continuaremos duros e fortes neste caminho. Eu continuarei. Continuarei porque muitos me inspiram a continuar e eu sei que minha luta vai inspirar muitos outros. Continuarei porque meu maior combustível é o sonho e nesta estrada não se sonha sozinho.

Dos muitos sonhos que tenho, e estou podendo realizar poucos deles, por hora, recebi hoje a notícia que infelizmente a partir de agora não sonharei junto com a São Clemente. Escola exímia na arte de falar aquilo que o povo quer ouvir. Eu ouvi e compreendi os motivos e desejo à agremiação toda sorte do mundo e que os caminhos dela sejam os caminhos do Ubuntu.

Acredito que o Brasil ainda precisa entender o que é Ubuntu. Ubuntu é uma lição de comunidade, de compartilhar espaços, de amor e gratidão. Ubuntu é uma filosofia que diz que pessoas são mais importantes que coisas, valorizar a comunhão e vencer na coletividade, é ter maturidade para desvalorizar o preconceito e valorizar a essência.
Ubuntu é um pensamento PRETO, Ubuntu está todo dia nos terreiros, nas nossas casas. Ubuntu é tudo, menos este país que nos exclui e mata. Quando o Brasil se enxergar como preto, talvez, nem seremos mais Brasil. Pelo menos não este que aí está.

boa sorte pro caminho de todos”.

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