Dois anos fora das campeãs, algo que não ocorria desde o ano de 2009, fizeram a Unidos da Tijuca realizar mudanças em sua equipe para não somente voltar ao Sábado das Campeãs mas disputar o campeonato, que não vem desde 2014. Para isso dois multi-vencedores foram integrados à comissão de carnaval. Laíla e Fran Sérgio, que empilharam conquistas na Beija-Flor.

Quem passa pelo barracão da Unidos da Tijuca na Cidade do Samba confirma a tese de que a escola volta a ter um carnaval opulento daqueles que fazem novamente uma das favoritas. A comissão de carnaval composta por Annik Salmon, Helcio Paim, Marcos Paulo, Fran Sérgio e Laíla recebeu a reportagem do CARNAVALESCO para contar todos os detalhes do desfile tijucano.

A Unidos da Tijuca, devido ao seu samba de melodia dolente e composto como se fosse uma oração, tem sido apontada como uma escola que fará um desfile religioso. O carnavalesco Fran Sérgio confirma essa tendência.

“O enredo é totalmente sacro. O nosso samba é uma grande oração. O filho de Deus, o pão da vida. Nosso caminho está todo calcado no pão espiritual. Aquilo que está dentro de nós. Cada um fazendo a sua parte, cada macaco no seu galho, conseguiríamos ter um mundo sem desigualdade e sem preconceito”, destacou.

Complementando o comentário do parceiro de comissão, Marcos Paulo ressalta que o pão é bastante característico na religião católica, mas segundo as pesquisas para o desfile eles encontraram também outras religiões que tem relação com o pão.

“O pão é muito forte na religião cristã, mas também temos representatividade em outras. O enredo é bastante ecumênico, tivemos essa intenção para tonar a trajetória e o desenvolvimento bastante emotivo para pegarmos o coração não só de quem vai desfilar quanto quem vai assistir a Tijuca na avenida domingo de carnaval”, conclui.

A figurinista Annik Salmon revelou na conversa com a reportagem do CARNAVALESCO que a temática foi sugerida por um torcedor da escola através de um email. Inicialmente, a sugestão tratava mais do pão industrial, o alimento. Após reuniões com a comissão surgiu a temática ‘Cada macaco no seu galho. Ó meu pai, me dê o pão que eu não morro de fome’.

“Recebemos o email de uma pessoa sugerindo fazer um desfile sobre o pão. Achamos interessante e decidimos desenvolver à nossa maneira. Sentimos a necessidade de tocar o público. O que podemos fazer para melhorar? Falar um pouco de respeito, de amor ao próximo. A chegada do Laíla foi ideal também nesse sentido, pois é uma figura muito humana, muito emotiva. Ele adorou a roupagem que definimos para o enredo”, relata.

De volta para agremiação onde trabalhou entre 1980 e 1982, Laíla foi fundamental no traçado da temática que o enredo tomou. Segundo ele, o brasileiro precisa ter o seu lado solitário mais incentivado, pois o momento social vivido pelo país é um dos mais duros de nossa história.

“É um enredo muito presente dentro da situação vivida em nosso país. Todo mundo trabalha para ter o seu pão de cada dia. Quando chegamos ao caminho mais espiritual acho que acertamos. Recentemente fui a um mercado e duas senhoras me abordaram elogiando o enredo, se diziam impressionadas com o samba. A participação popular tem sido fantástica”

‘A crise é apenas financeira’, dispara Laíla

Vivendo um dos momentos mais difíceis da história, o carnaval está quase passando o pires para conseguir verba afim de colocar o carnaval na rua. Sempre contundente em suas opiniões, Laíla desconstrói a tese de que a estrutura da festa precisa mudar e insiste que o problema é apenas financeiro.

“Crise não coíbe criatividade e criação do artista. Já cansei de catar bagulho na rua para fazer desfile. Precisávamos do livro de ouro, passando o boné mesmo para colocar o desfile na rua. Tem crise? Tem. Mas o sambista não está em crise. As baterias não estão em crise, o canto não está, a alegria. A dificuldade é restrita ao aspecto financeiro. Já cansamos de fazer com o mínimo. Dinheiro não significa talento de ninguém”, destaca.

Helcio Paim, um dos mais experientes trabalhadores de barracão da Cidade do Samba, faz questão de enaltecer a chegada de Laíla e Fran, destacando a experiência e as conquistas da dupla.

“A carga de experiência deles é muito grande. São 16 títulos. A gente chegou a duelar nos últimos carnavais. Somamos as experiências, deles com a nossa aqui. A Tijuca precisava de dar uma mudada. Depois do acidente, no ano passado recebemos um baque que foi novamente não voltar. Ficar de fora novamente foi bastante complicado. Com eles eu acredito que nosso patamar muda. O que tem acontecido é uma grande união de estilos e quem tem a ganhar é a Tijuca”, pondera.

Fran Sérgio avalia que ainda nutre carinho pela Beija-Flor, escola onde praticamente nasceu. O artista conclui afirmando que o perfil atual da Unidos da Tijuca, de característica empresarial, casa com sua maneira organizada de ser.

“Eu nasci literalmente em Nilópolis. Vivo lá até hoje. Cresci dentro da escola. Eu realizei um sonho em trabalhar na Beija-Flor. Foram 23 anos e eu sou muito grato. Aprendi a trabalhar em grupo que é uma questão difícil para o artista. Esse lado humano da escola me fez crescer muito. Foram anos maravilhosos e hoje me sinto um carnavalesco evoluído. E a Tijuca é uma escola organizada, quase uma empresa. Sempre procurei esse perfil, sou organizado, tenho toc. É uma escola leve, a equipe está toda muito feliz”, finaliza.

Conheça o desfile

Setor 1: Começamos em 6.000 a.c. Na antiga Mezopotâmia, passando por egípicios, hebreus e fenícios. Quando surge o alimento sagrado. Nenhum outro produto dominou o mundo de forma material e espiritual como o pão. Abordamos o aspecto espiritual do pão. Tentamos passar uma mensagem amorosa, a sociedade hoje em dia não liga um para o outro. Não apenas de governantes, mas das próprias pessoas mesmo.

Setor 2: O agente motivacional do pão, que foi até estopim de revoluções na história da humanidade. O estopim da Revolução Francesa foi a taxação do trigo e a proibição do pão em casa. Desse fato começa o processo que desencadeou na queda da Bastilha. Vamos ter a Revolta da Farinha em Portugal, as trabalhadoras russas que vão para a rua pedir pão e paz.

Setor 3: A chegada do pão no Brasil, trazido pela família real. Eles queriam comer um pão igual aos franceses. Por isso surgiu o nome pão francês. Antes deles chegarem o pão que se consumia no Brasil era indígena, à base de mandioca.

Setor 4: A fé, o pão como alimento espiritual. Passamos por várias religiões mas a maior parte realmente é o cristianismo. O pão bento de Santo Antônio.

Setor 5: O pão na parte social. Porque não são todas as pessoas que podem ter um pão na mesa para se alimentar. Abordamos a forma egoísta com que a sociedade pensa somente em si mesma. Está faltando amor ao próximo. O pavão traz essa história, por ter os olhos de Deus em sua calda.

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