A palavra sacrifício tende a ser utilizada ao pensar as atos divinatórios que constituem as tradições religiosas de matriz africana. Ou melhor, de matrizes africanas. Afinal a África é uma força plural. Proponho pensar a substituição de sacrifício por sacralização. Não que eu pense aqui sobre um sacro cristão. Sacralizar é, dentro de um conjunto de códigos e práticas, transmutar a Natureza. Alquimia. Magia. Bruxaria. Feitiçaria. Encantaria.

Pensando o candomblé de legado Yorubá como ponto, a sacralização se dá nos domínios elementais, na organicidade das coisas. Os quatro elementos primordiais são colocados num cabaça e soprados no mundo. A partir disso, os ritos sacralizam os minerais, a pulsão de vida pela força animal e as macumbarias das ervas. Ewé é a força vegetal cuja seiva alimenta o ser humano, moldado do barro, permitindo o restabelecimento do vínculo ancestral. Você já pensou na pluralidade dos banhos inúmeros banhos de ervas? A maceração lenta e em reza-canto-prosa torna-se um líquido sagrado, derramado, geralmente, do orí – cabeça. Em 2009 a Beija-flor já nos avisou: “quem lava o corpo, lava a alma e toma um banho de axé”.

Mas este texto não brotou a pensar o vôo do beija-flor nilopolitano. Ele surgiu do solo fértil de Padre Miguel. No ano de 2017 a Unidos de Padre Miguel ritualizou na Marquês de Sapucaí com Ossain, o Orisá das ervas, curandeiro, o sábio eremita que se emaranha em cipós e raízes e camufla nas folhagens. O título do enredo era “Ossain: o poder de curar”. A escola gritou na avenida “o samba é o remédio da alma.” Assim como informa o itan – história ancestral perpassada pela oralidade -, as folhas do senhor da vegetação foram carregadas em ventos pela energia de Oyá. Sendo assim, a agremiação da zona oeste protagonizou um grande vendaval macumbístico, desfilando sobre as bênçãos dos boldos, o tapete de Osalá.

De primeiro momento destaco a opulência visual adotada no desfile, assinado pelo carnavalesco Edson Pereira. Era possível perceber a estilização dos elementos visuais da escola dentro de uma narrativa afro-brasileira, colocando em Artes os diálogos entre os dois lados do Atlântico. Pontuo positivamente o caráter afrocentrado nas escolhas de materiais. Deuses pretos, pessoas pretas, macumbarias pretas. O protagonismo do negro na narrativa padremiguelense dialogou, e ainda dialoga, com a identidade estabelecida na agremiação nos últimos carnavais.

Pensando a questão da narrativa do enredo, sua construção e o emaranhamento dos acontecimentos – haja vista o aspecto diacrônico que a itinerância do desfile evoca -, o trabalho de Edson é baseado dentro de uma lógica tradicional, de repertório quase inteiramente colocado no senso comum e de rápida leitura. Neste sentido, apostar no tradicional foi um grande acerto. Não que a ideia de uma vanguarda macumbística seja algo que eu discorde. Entretanto, a equipe criativa conseguiu dar liga à produção carnavalesca, funcionando em uníssono. O conjunto simbólico (cores, formas, texturas) dialogou com a concepção e organização da proposta narrativa abordada pelo enredo e que funcionaram, perfeitamente, com o samba, cantado em plenos pulmões pela grave voz de Pixulé. Havia, portanto, a estrutura raíz-caule-folha. As flores-frutos surgiriam na execução do desfile em si.

Ainda pensando o lirismo do enredo, destaco também a doçura de trazer em carro alegórico a relação dos pretos-velhos e caboclos com as macumbarias das ervas, a maceração das folhas. Na Umbanda se canta: “Pega folha, espreme folha, quero ver sumo sair. Se aqui tem folha seca, Pena Branca tem a força de fazer sumo sair.”. O agbò, macerado no pilão, é um banho de ervas misteriosas e de extrema importância nas práticas de limpeza do corpo e da alma, fundidos. Com isso, a assinatura de Edson abordou não só o detentor litúrgico das ervas como também seus falangeiros, que trabalham através da sua irradiação. Saravá as ervas sagradas da Jurema!

Conforme dito um pouco acima, as flores-frutos fizeram desse carnaval memorável e digno de registro à posteridade. Por isso o escrevo! Jéssica Ferreira – a primeira porta-bandeira – se acidentou em frente à cabine dupla de julgadores, localizada no meio do sambódromo. Torceu o joelho. Ossain tende a ser representado artisticamente na figura humana de um eremita com apenas uma das pernas. Jéssica foi retirada do desfile. Vinícius Antunes – o primeiro mestre-sala – ficou só. Nas palavras do mesmo, retirada da transmissão televisiva, disse ter ficado constrangido. Ossain dança no terreiro. Vinícius bailou na Sapucaí. A brava Cássia Maria, até então segunda porta-bandeira, assumiu o posto. Houve a formação de um novo casal em caráter de urgência diante dos julgadores. Nova apresentação na mesma cabine, um ineditismo carnavalesco foi estabelecido. O “horror” transmutou em torpor. Lembram do banho de ervas? Arquibancadas aos berros. Os ares dos pulmões de Pixulé inflaram o povo do santo-samba. Oyá balançou seu bambuzal e disseminou as folhas de Ossain nas bocas que cantavam “hoje a Unidos de Padre Miguel tem o poder de curar”.

Jéssica não foi castigada por Ossain, como rumores preconceituosos e intolerantes foram surgindo pelos becos. Jéssica foi, também como diz o samba, “a raíz que manifesta onde a seiva se mistura”.

O acidente, mesmo trazendo a dor sentida no joelho da porta-bandeira, congela imagens inesquecíveis na memória do/da sambista. Mesmo em queda, ela bravamente honrou o pavilhão da vermelho e branco. Coloco esse fato não como aquele que ofusca todo o poderoso trabalho criado pela agremiação no pré-desfile. Eu o coloco como a ignição que só o desfile em si traz. É a magia carnavalesca do aqui e do agora. Existe diferença entre o carnaval perfeito e o carnaval inesquecível. Inesquecível se mantém na cabeça de todos, o perfeito nem sempre.

Pelo visto quem não entrou em frenesi foram os julgadores do quesito mestre-sala e porta-bandeira. As menores notas de cada quesito eram descartadas. Neste ano, um 9,5 foi descartado do segundo julgador, que estava no módulo da cabine dupla. Mesmo assim, outro 9,5 e um 9,6 foram computados à nota final, perdendo 0,9 décimos. Daí levanto o questionamento: há como dar nota ao inesquecível? O torpor não tem unidade de medida que dê conta. Ficou em quarto lugar, perdendo o campeonato do grupo de Acesso ao Império Serrano, que estava a exatos 0,9 décimos à frente. Ou seja, o julgamento da técnica, que não tem capacidade de observar o divino surreal, dificultou a escola de Padre Miguel subir em copas mais altas dos baobás. Caso o decréscimo não tivesse existo, estaria empatada na briga pelo título e o quesito de desempate, samba-enredo, foi gabaritado pela vermelho e branco, mas não pela verde e branco da Serrinha.

Finalizando todas essas especulações, concluo esse texto colocando como memória todo o desfile emblemático e catártico, onde Ossain pôde nos mostrar a imensidão do Asé carnavalesco. Um pré-carnaval perfeito, um desfile inesquecível! A arquibancada tremeu. Além de parabenizar toda equipe criativa da agremiação pelo trabalho muitíssimo lapidado e coeso, dedicado este texto memorial a cinco pessoas: Vinícius, Jéssica, Cássia e Ewerton Anchieta, os casais responsáveis pela pavilhão da agremiação em 2017. Quanta bravura e poder! Dedico também à Wilma Tostes, minha irmã de santo, iniciada na Natureza das folhas e que muito me inspira e ensina. Através dela aprendi a rezar ao akokò, peregún, para-raio, abre-caminho, cana do brejo, guiné, mariwò… O samba diz e eu repito: “Kosi Ewé Kosi Orisá”. Sem erva, sem Orisá.

Autor: Rennan Carmo – História da Arte/EBA/UFRJ, Pesquisador OBCAR/UFRJ
credenciado na linha de estudos de macumbarias carnavalescas. E-mail:
[email protected]
Instagram: @obcar_ufrj

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