Vai-Vai arrepia o Anhembi com mensagem contra o racismo

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Sempre a escola mais esperada do carnaval de São Paulo, a Vai-Vai não decepcionou o público presente no Sambódromo do Anhembi. Quarta a desfilar na segunda noite do Grupo Especial, a escola levantou as arquibancadas com sua passagem e teve na atuação de Grazzi Brasil o seu grande trunfo para desempenhar uma das melhores harmonias deste ano. A Vai-Vai completou seu desfile em 63 minutos e apresentou o enredo ‘O Quilombo do Futuro’.


Comissão de Frente

A comissão de frente da Vai-Vai foi composta por 16 bailarinos e 1 elemento alegórico. Baseou-se em fatos bíblicos, representados pelo povo hebreu, povo este que foi escolhido pelo Deus supremo e que segundo as escrituras sagradas marchavam no deserto rumo à terra prometida em posse da Arca da Aliança, que é a presença do sagrado na Terra. O ponto alto da apresentação foi a presença de uma criança, que interagiu participando da coreografia e levando o público ao delírio.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O mestre-sala do Vai-Vai representava Piye, o campeão de Amon e a porta-bandeira, Amenirdes, a divina e adorada de Amon. Piye primeiro faraó negro da XXV dinastia egípcia de origem Cuxita (Núbia). O mais emblemático faraó negro a consolidar o domínio núbio sobre o Egito. Sua irmã Amenirdes, intitulada a divina adorada de Amon. A fantasia do casal fazia alusão às vestimentas usadas no Antigo Egito. A indumentária era suntuosa com muitos faisões nas cores da escola. Foi um dos casais mais competentes dos desfiles deste ano.

Harmonia

Vai-Vai pisou firme e comeu o asfalto do Anhembi. Um canto no padrão que a escola do Bixiga está acostumada a imprimir. Desde o começo e até o final da escola as alas cantaram com muita força o samba, que foi um dos que mais conseguiu interação com o público, desde o começo do desfile.

Enredo

A Vai-Vai propôs na avenida uma complexa proposta. Narrado por um ‘griôt afronauta’, o enredo é todo contado em primeira pessoa. O Afronauta se revela como um senhor viajante do tempo e declara a urgência de sua viagem. Chega até o Afronauta a mensagem através dos tambores (forma de comunicação com o sagrado), do povo preto reclamando por tudo que lhe foi subtraído.

O enredo começou a ser desenvolvido através do setor em que demonstra a África como origem das civilizações. O Egito negro, portal para todo o conhecimento do presente, passado e futuro. No segundo setor, o conceito da Maafa, a escravidão negra (faz referência à escravização dos povos africanos e à diáspora africana causados pela escravização, imperialismo, colonialismo, invasão, opressão, sequestro, desumanização e exploração). No terceiro setor o Vai-Vai apresentou as lutas em Diáspora e na sequência trouxe o protagonismo negro na quarta parte do desfile. O Quilombo do futuro, através de um conceito chamado ‘afrofuturismo’ deu fim ao enredo da escola do povo.

Evolução

A escola conseguiu passar pelo Anhembi sem qualquer percalço de evolução, concluindo o desfile de maneira bastante tranquila. As alas, mesmo algumas que tinham fantasias bastante volumosas, evoluíram muito, pulando, cantando, se movimentando, como é o pedido pelo manual do julgador.

Samba-Enredo

A melhor apresentação da noite. Grazzi Brasil, estreando sozinha como principal cantora da escola, provou de forma definitiva que uma mulher tem totais condições de conduzir o desfile de uma escola como o Vai-Vai. O samba teve funcionamento perfeito, impulsionado pelo comando da cantora, mesmo com o desempenho irregular da bateria. O refrão era um dos mais cantados do ano no carnaval de São Paulo.

Fantasias

A ala de baianas da escola veio representando as Candaces, as rainhas guerreiras africanas. Através do filme Pantera Negra a fantasia da bateria Pegada de Macaco busca dentro do enredo mostrar o protagonismo dos negros no cinema. Morta em março de 2018 a vereadora Marielle Franco foi homenageada na 15ª ala ‘Eu tenho um sonho! Todos presentes!’. Embora bastante bonitas e com uma variedade grande de materiais alguns figurinos do quesito tinham dificuldade de leitura, principalmente aqueles do primeiro setor sobre a África.

Alegorias

Grandioso, o abre-alas da Vai-Vai possuía três bases. Na primeira, a representação da ressurreição dos faraós negros da XV Dinastia de Cuxita. A segunda base a representação do império negro no Egito. Na terceira base a metalurgia e a escrita, dois legados do povo africano para a sociedade. Na segunda alegoria, os ‘Tumbeiros, lágrimas e sangue no atlântico’. O terceiro carro pedia poder para o povo preto. No carro ‘Sim, nós podemos’, o Vai-Vai tentou demonstrar que é possível romper barreiras que mantém a estrutura do racismo. A última alegoria, ‘Quilombo do futuro’ sintetizava o enredo da escola. No carro o povo de pele preta reconquista o domínio tecnológico.

Bateria

Através do filme Pantera Negra a fantasia da bateria Pegada de Macaco busca dentro do enredo mostrar o protagonismo dos negros no cinema. A bateria teve uma atuação com alguns problemas e chegou a atravessar após uma das paradinhas e levou alguns segundos para se readequar à métrica cantada. Mas não houve danos à harmonia e ao canto da escola.

Outros Destaques

Camila Silva, como sempre estonteante, se apresentou com uma fantasia toda de led, arrancando aplausos e suspiro do público. Como é tradição em desfiles da escola uma grande quantidade de bandeiras foi distribuída para o público, causando um efeito espetacular nas arquibancadas na arrancada da escola. A família da vereadora Marielle Franco, esperada para participar do desfile, não compareceu. A homenagem à política, morta em 2018, foi um dos pontos de maior comunicação com o público.

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