Entre todas as incertezas que a pandemia trouxe para o mundo, uma delas foi e ainda é o carnaval. Quem é sambista, viu com preocupação as escolas fechando suas portas, cancelando seus eventos e parando suas atividades de barracão. Na incerteza de quando o carnaval vai para a avenida e como produzi-lo, as agremiações param para olhar dentro delas mesmas, para sua equipe e para sua comunidade. Um desfile não brota do nada. As escolas de samba têm contas a pagar, funcionários para manter e projetos para andar.

Nesse olhar para dentro das agremiações, o site CARNAVALESCO apresentará como as escolas de samba do Grupo Especial viveram e estão vivendo a pandemia. Os prejuízos, as ações, como estão as equipes e como projetam o futuro. Para começar, a campeã Viradouro, com pé no chão e contas em dias, mostra que boa gestão faz uma escola parar e não entrar no tom nada bom do vermelho.

Logo que a “infinita quarentena do carnaval” foi anunciada, o céu de repente ficou nublado na Sapucaí. As escolas começaram uma empreitada para se manterem ativas na internet. Os funcionários viveram momentos de incertezas, até que as informações oficiais foram chegando e, nem sempre, deu para salvar todo mundo. No salve-se quem puder do samba, a questão era manter as equipes ou fechar as contas.

Reconhecida por ter as finanças sempre em dia, nesta gestão, a Viradouro precisou tomar decisões. Como muitas empresas mundo afora, era hora cortar custos. Com o lema “honrar compromissos e não acumular pendências”, o presidente Marcelo Calil projetou que, desligando alguns funcionários, eles poderiam se manter por alguns meses com suas recisões e seguros desemprego. E explicou:

“Os funcionários essenciais ao momento da escola (de reconstrução de parte do barracão e reparos na quadra) foram mantidos. Os outros tiveram suas demissões efetivadas, e, posteriormente, conversaríamos novamente sobre a readmissão ou ajuda, dependendo, obviamente, da data do próximo desfile”, explicou Calil.

Quanto aos profissionais de desfile, o presidente da escola do Barreto explicou que seguiu com todos eles, com o acordo de pagar 50% do que havia sido combinado na contratação de cada um.

A Viradouro da responsabilidade social

E por falar nesses profissionais, enquanto a diretoria da vermelha e branca planejava o ano de perdas inevitáveis, o intérprete Zé Paulo Sierra, também lamentava o período que o mundo estava passando. Responsável por dar voz, ao lado de sua equipe, aos sambas da escola nos desfiles, o cantor precisou guardar o microfone e sentir o gosto amargo de não poder comemorar o título que acabaram de conquistar. Não foi só a instituição Viradouro a afetada pela pandemia, Zé Paulo contou que o baque com as notícias foi muito grande e explicou o quanto foi atingido pela pandemia:

“Afetou não só a mim, mas também aos colegas. A Viradouro, no que pode, tem nos dado suporte. Mas, eu fui diretamente atingido. Tinha mais de 10 shows pelo Brasil e não consegui realizá-los. Tinha uma viagem internacional para fazer um evento em Portugal, o Mega Samba, e cancelaram”.

Sobre a comunidade, esta não foi desamparada.

A escola de Niterói não deixou de lado sua comunidade e quem esteve ao seu lado. A agremiação montou uma super ação de distribuição de máscaras para a sua cidade e também São Gonçalo. A ideia da diretoria era ajudar os ateliês que prestam serviços à escola. Assim, a eles ajudariam essas empresas no primeiro momento da pandemia.

“Procuramos nessas ações atender não só a comunidade da escola, mas das cidades em geral, além de hospitais, asilos, etc. À comunidade da escola, foram dadas cestas básicas aos de extrema necessidade, em que alguns, inclusive, nem tiveram alcance ao auxílio emergencial”, afirmou Marcelo Calil.

As ações da Viradouro foram rápidas e a escola foi uma das primeiras a se mobilizarem em prol da comunidade, o que gerou repercussão em diversas mídias pelo país e o reconhecimento de seus componentes.

O sambista, os riscos e a Covid-19

Ainda sobre os impactos da pandemia, é de se imaginar que um profissional que vive de eventos tenha sofrido com a quarentena. Ainda com as quadras fechadas, a situação fez com que os artistas do mundo do samba procurassem se ocupar para não cair no ócio. Enquanto Marcelo Calil pensava em ajudar a comunidade e não deixar Viradouro parar por completo, mantendo ativos os ateliês, Zé Paulo mergulhava nas lives e colocava projetos pessoais em prática. Ele gravou uma música, a “Ninguém tem razão”, a qual se orgulha da repercussão e compôs um samba, ao lado de Dudu Nobre e Diego Nicolau. Samba esse que acabou indo para o Unidos de Vila Maria.

Quanto ao mestre de bateria, Ciça, este precisou se preservar. Pertencendo ao grupo de risco à Covid-19, Ciça não teve outra escolha que não fosse se cuidar mais que muita gente. Há 9 meses sem atuar pelo carnaval, ele lamenta o tempo parado e declara saudade.

“Eu tive até pensando em fazer alguma coisa nesses meses parado, mas não deu, porque eu faço parte do grupo de risco. Então, quase não fui para rua. Mas, o que me acalmava um pouco, era conversar com o pessoal da bateria. Eu senti muito. E você ficar sem fazer aquilo que você gosta, acaba sendo afetado. A saudade dos ritmistas é imensa”, falou Ciça.

O cantor Zé Paulo, ainda que declarando estar se cuidando, foi infectado. Mas, ele comemora o fato de ter passado pela doença sem grandes problemas. Apesar de agradecer de estar vivo, ele alinha seu discurso ao de Ciça para desabafar sobre o período de pausa indesejada:

“A gente é afetado profissionalmente, psicologicamente, fica com medo de fazer as coisas até para não se contaminar ou receber um julgamento que, geralmente, vem de uma forma muito depreciativa, sem saber os motivos que a pessoa tá fazendo aquilo. Tem muita gente passando necessidade de verdade. E o músico vive da música. Vive de eventos. Então, não tendo eventos, acaba complicando demais”, desabafou o intérprete falando ainda do que fez durante o tempo em casa: composições, iniciação científica na OBCAR e montou um workshop que, em breve será lançado.

A incerta volta, a vacina e os desfiles

Quando as escolas de samba vão voltar a pulsar não se sabe, mas vontade é o que não falta. Ciça, está louco para voltar a fazer o ama, Zé Paulo Sierra, espera a vacina e a comunidade junta de novo, e Calil mantém a calma de um presidente que projeta um futuro responsável.

Para manter os ateliês ativos, Calil deixou o barracão fazendo os protótipos para o desfile. Ele confessa que apostava em carnaval apenas em 2022 e abrir os trabalhos de confecção de alegorias em julho de 2021, mas com a data dos desfiles marcada justamente para julho de 2021, ele promete que os trabalhos irão começar já no mês que vem, fevereiro (2021).

“Seguiremos os protocolos utilizados nesse tipo de ofício e buscaremos, juntamente a liga, maiores informações que nos ajudem, no decorrer desses meses, a manter o padrão que sempre tivemos”, explica o presidente.

O intérprete, só pensa na vacina. Ansioso para voltar a ver a quadra cheia, Zé Paulo pensa em missão dividida quando o assunto é festejar a volta:

“Acho que o encontro com a comunidade vai ser um pouco mais a frente, depois da imunização, mas como eles, eu também estou com saudade. Então, eu desejo isso com muita vontade, porque já vai fazer um ano que cantei pela última vez”, lembrou o cantor.

Os ensaios ainda não começaram, embora o mestre Ciça esteja louco para voltar. Ele espera pôr a mão na massa logo, mas teme o tempo curto e pela falta de ritmo dos integrantes da bateria. Para ele, os componentes precisam do ensaio para não perder a pulsação.

“Ainda não começamos. Vamos sentar para conversar e vamos devagarzinho, dependendo da diretoria da escola. Os ensaios fazem muita falta. Se o carnaval for em julho, com certeza o tempo é muito curto. Mas, a gente vai dar um jeito, afinal a gente é sambista”, conta o otimista Ciça.

E o discurso entre presidência, carro de som e bateria, além de ter se alinhado no desfile que deu título a Viradouro, também está sincronizado no desejo de estar de volta ao carnaval, com a quadra cheia e todos imunizados para finalmente comemorar o carnaval de 2020. Ansiosos por esse momento, a escola está na missão de projetar o Carnaval 2021, que pode pular para 22, sem ao menos ter saboreado 20. Nesse dilema, o que se sabe até aqui, é que a vermelha e branca do Barreto tem um encontro, até então, marcado com a passarela do samba. No dia 11 de julho, ela será a quinta escola a desfilar com o enredo “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria”.

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