O primeiro casal da Portela, Marlon Lamar e Lucinha Nobre, renovados para 2023, vencedores do prêmio Estrela do Carnaval 2022, como o melhor do Grupo Especial, recebeu o site CARNAVALESCO para um papo aberto sobre o desfile de 2020, o deste ano, o futuro e o quesito mestre-sala e porta-bandeira. A propósito, o Estrela do Carnaval foi o primeiro prêmio que os dois ganharam juntos e foi conquistado em 2017 graças ao desfile que apresentaram pela Porto da Pedra.

“Foi o primeiro prêmio que ganhamos juntos, quando ainda estávamos na Porto da Pedra. Ele tem uma simbologia, porque nós já havíamos trocado para Portela, aí recebemos o prêmio com a bandeira e fantasia da Porto da Pedra e depois no mesmo evento nos apresentamos com a Portela. Foi um momento muito legal de transição”, disse porta-bandeira Lucinha Nobre.

Para o casal, esse carnaval de 2022 foi diferente, pois estavam vindo de um desfile de 2020 com problemas. O próprio casal assumiu seus erros na proposta passada, assim como o vice-presidente Fabio Pavão, que em outra conversa com a equipe do site CARNAVALESCO, também reconheceu que a escola poderia ter feito diferente. Marlon e Lucinha deram uma aula de superação, se uniram mais do que nunca e o resultado do processo foi de arrepiar.

“Estávamos mais unidos do que nunca. Muito pelo que ocorreu no Carnaval passado eu foquei na segurança em cima da Lucinha e a Lucinha na segurança em cima de mim, aí colocamos como meta que juntos éramos imbatíveis. Depois de tanta coisa que passamos, nos demos as mãos e falamos que o resultado iria chegar. Acredito que a união e a cumplicidade foram as chaves para esse baú de ouro no final do arco-íris”, comentou o mestre-sala Marlon Lamar.

“Fora nossa união, a gente precisa dizer que trabalhou muito. Nós nos deparamos com muitas dificuldades, por exemplo: O Marlon foi para São Paulo, aí ensaiávamos remotamente com o Marlon em São Paulo, a Camille em Portugal e eu aqui no Rio. Quando ele conseguiu vir para o Rio, anunciaram o adiamento do carnaval, eu é que fui para São Paulo. Só que o Marlon tinha que começar a estudar, nós dois estávamos com muitas dificuldades de aspecto emocional, desconfiados, desacreditados e nós nos sentíamos desacreditados por nós mesmos e pelas pessoas, porque saímos do último carnaval sem nota. Por isso, a gente se colocou num lugar de estreantes e começamos a trabalhar… fiz um trabalho diferente dos outros anos, porque contratei um personal e fiquei oito meses com ele. Ele foi muito parceiro e fez um planejamento fantástico”, completou Lucinha Nobre.

Quem olha o jeito descontraído e bem-humorado dos dois, pode acreditar que a superação foi simples e fácil para eles, mas quem pensar assim cometerá um erro terrível. Após contarem que o segredo do sucesso está na união e cumplicidade, o casal revelou o processo entre o carnaval de 2020 e o de 2022.

“Agora, eu posso dizer que, depois daquela apuração nós ficamos três dias seguidos trancados dentro do meu quarto sem falar com ninguém. A gente chorou muito, olhávamos um para o outro e nos desmanchávamos, no primeiro dia nem comemos e no terceiro dia descobrimos que roubaram o carro da Lucinha. Nós recebemos um combo, os dois desenvolveram crise de ansiedade e eu acreditava que isso nunca iria afetar a gente. Sabe? Foi muito doido”, disse Marlon.

“Aquele carnaval de 2020 ficou batendo na gente o tempo todo do processo para esse ano. Nós depois fomos para Uruguaiana, aí não teve carnaval lá e voltamos já ouvindo a história de pandemia, pandemia, pandemia. Marlon teve que ir para São Paulo por questões financeiras, depois entramos num buraco muito difícil de sair. Eu tive depressão, nós tivemos muitos choros e nisso ainda começou a morrer um pessoal na Portela, minha mãe ficou doente, meu relacionamento de seis anos acabou. Tudo o que tinha para acontecer de ruim, aconteceu de uma vez só, mas foi nesse momento em que o Marlon passou para a faculdade de Medicina e aí eu parei e falei: ‘Calma aí e vamos!’. Foi quando contratei o personal, nós tomamos a decisão de trabalhar com a Camille e isso tem influência total no resultado, porque ela foi minha ensaiadora por 15 anos, mas parou para ter o filho. Ela ajudou a gente na Porto da Pedra, mas ainda não era nossa ensaiadora, quando foi em 2019 ela se mudou para Portugal. Nos separamos, mas em 2021 quando veio o negócio do online, o Pavão falou que acreditava ser possível e nós voltamos a trabalhar. Outra pessoa que temos que agradecer nesse processo é o Fernando Magalhães, porque ele fez uma roupa incrível, assim como a nossa maquiadora também fez. Todos nós trabalhamos muito”, contou Lucinha.

E, mesmo o casal tendo sigo enaltecido pelo público, recebido muitos elogios da imprensa e da comunidade do carnaval como um todo, na apuração eles perderam um décimo, logo, era impossível não perguntarmos como eles lidaram com isso e se chegaram a ler a justificativa.

“É só ver os vídeos. Os vídeos do carnaval passado mostram que foi ruim mesmo. Fato. Só que esse ano não, esse ano nossa respiração, olhar e cabeça eram combinados, a dança solta era combinada. Ouvi alguém dizendo que fomos para Avenida com o regulamento debaixo do braço e foi bem isso mesmo, sabe? E, ainda sobre os jurados, teve jurado distribuindo notas 10 e aí é outro ponto também que eu não concordo, se todo mundo vai sair com nota 10, por que eu vou ensaiar? Outra coisa que eu discordo é que esse ano tivemos mesmo peso duas medidas. Os 50 pontos da Taciana e do Daniel (casal da Grande Rio) foi super merecido, mas a gente e outros casais mereciam também. Para encerrar, eu gostaria de falar da dança do casal, porque nós não podemos descaracterizar ela. Eu adoro macumba, nós somos macumbeiros, a gente também usa dessa inspiração, mas esse ano exageramos nas referências as danças dos Orixás e nós temos que ter cuidado para não descaracterizarmos a dança do mestre-sala e porta-bandeira”, afirmou Lucinha.

“Eu olhei a justificativa e não concordo de forma alguma com ela. Eu não consigo entender o ponto de vista dela para dar 9.9, mas agora é trabalhar para que isso não se repita. Ela falou que a gente tinha uma dança com dinâmicas diferentes e isso eu não concordo de jeito nenhum, mas agora não temos mais como discutir. A nota já foi dada. O jurado ao lado dela nos deu o 10, então é uma coisa que eu realmente não entendo. Eu agora vou trabalhar para em 2023 não cair em outra justificativa como essa. Respeito, mas eu não consigo concordar com o que foi escrito”, disse Marlon.

Apesar do ótimo desfile de 2022, Lucinha Nobre acabou a temporada com o pé quebrado. Ela contou ao site CARNAVALESCO como aconteceu. “Foi nada demais, eu fui assistir ao desfile da Vila Isabel, fui dar um beijo no meu irmão, vi o casal passando, vi a comissão de frente, vi um pedaço do desfile até a bateria, mas quando eu voltei eu pisei em falso naquela calçada que tem antes da grade azul e meu pé virou. Nem cheguei a cair não, só ficou doendo muito. Voltei pro camarote para terminar de ver a Vila, depois fui para o hotel. Quando foi no dia seguinte eu estava com muita dor ainda, então resolvi ir ao médico e fizemos uma chapa. Fraturei o quinto metatarso”.

Como Lucinha mesmo comentou, ao lado dela está atualmente o jovem Marlon Lamar, que atualmente está conciliando a carreira no carnaval com os estudos para medicina em São Paulo e ele explicou para o CARNAVALESCO, como faz para conciliar as atividades.

“Planejamento é a palavra-chave. Medicina é uma faculdade integral, se você conseguir montar um cronograma em que se tenha as prioridades bem definidas, quais os compromissos da semana você se vira. Eu sei que minhas primeiras 12 horas do dia são destinadas a faculdade, então quando eu chego da faculdade eu estudo o que foi dado no dia e desse modo não acúmulo matéria e isso permite que eu esteja no carnaval. Eu preciso dizer também que quem me levou até o curso de medicina foi o carnaval, porque eu nasci dentro de uma escola de samba e cresci ouvindo que sambista não podia fazer isso e aquilo, que quem era do samba era da bagunça e o carnaval era coisa de quem não tinha o que fazer. Só que eu entendia o contrário, sempre estive dentro dos projetos sociais. Fora isso, eu nunca tive dinheiro para fazer um curso pré-vestibular ou ter um professor particular, então foi o carnaval que possibilitou estar na faculdade. Espero que essa aliança entre medicina e carnaval sempre seja amorosa. Espero ser o mestre do carnaval”.

A dupla portelense também falou sobre a renovação com a Portela para o desfile de 2023. “Eu fiz da Portela a minha família. A Portela é tudo o que eu tenho no Rio de Janeiro, é onde tenho meu pai, meu tio, periquito, papagaio. O carnaval do ano que vem será mágico”, prometeu o mestre-sala.

“Me preparei a vida inteira por esse momento. Algumas pessoas dizem que no centenário tem que ter identificação, raízes etc. Ninguém pode dizer que eu não tenho minhas raízes na Portela, porque mesmo tendo saído a minha raíz ficou plantada aqui e agora eu estou colhendo os frutos com o Marlon. Tenho certeza de que de onde a Dodô estiver ela estará me abençoando, também tenho muito orgulho de ter recebido do departamento cultural da escola a ponteira da Dodô”, completou Lucinha.

Lucinha acompanha o trabalho das outras escolas como um todo, portanto, sendo uma porta-bandeira já consagrada, ela concorda que há uma renovação acontecendo e se há algum nome em especial que chame atenção dela.

“Vejo umas meninas chegando sim, mas precisamos respeitar a maturidade. Acredito que o meu auge, o da Seliminha, e o da Giovana está aí, são porta-bandeiras com carreira incontestável, carregam muita bagagem e isso é um fato. Agora, tem umas meninas que chegam chegando tipo a Bruna (Santos, da Mocidade) que dança muito, tem braços lindos também. Outra que chama atenção é a Taciana (Couto, da Grande Rio), que já tem mais tempo, mas também arrebenta. Tem espaço para todo mundo, é só a escola entender o que quer para ela, no caso da Portela nós temos ao menos tempo a juventude com a maturidade. A gente se completa. Uma porta-bandeira precisa ter sorriso, garra e girar para os dois lados. Fora da Avenida tem que trabalhar, porque se deitar na fama não vai dar certo”, respondeu Lucinha Nobre.

Foto: Site CARNAVALESCO

Marlon Lamar também explicou o que para ele é fundamental na avaliação da dança de um mestre-sala. “A função primordial do mestre-sala é cortejar e proteger a porta-bandeira e o pavilhão e eu sinto que estamos perdendo isso. Para mim é inadmissível um mestre-sala dar as costas para porta-bandeira, riscar na frente do jurado, riscar para o público e esquecer do foco principal que está na bandeira e porta-bandeira. É essencial cortejar e proteger a bandeira e porta-bandeira, quando eu estou vendo um casal se apresentando isso é a primeira coisa que eu olho. Também temos que ter uma dança de mestre-sala para porta-bandeira e de porta-bandeira para o mestre-sala. Eu enquanto jurado exigiria isso com certeza”, finalizou.

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