No segundo ano do casal Lage, a Portela, mais uma vez, apresentou um bonito conjunto de fantasias e alegorias para trazer para a Sapucaí a árvore sagrada da vida, o Baobá. No entanto, diversos problemas resultaram também em dificuldades no quesito Evolução. O samba, não muito destacado na época da escolha, confirmou o crescimento durante estes meses e passou bem na Passarela do Samba, impulsionado por mais uma boa atuação da Tabajara do Samba e por Gilsinho. Outro ponto alto do desfile foi o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marlon Lamar e Lucinha Nobre, que fizeram uma coreografia com muita garra e vigor. Com o enredo ” Igi Oṣè Baobá”, a Portela foi a segunda escola a pisar na Sapucaí na última noite de desfiles do Grupo Especial encerrando a sua apresentação com 68 minutos. * VEJA FOTOS DO DESFILE

Fotos de Allan Duffes e Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO

Comissão de Frente

Coreografada por Leo Senna e Kely Siqueira, o grupo apresentou o retorno às origens dos povos africanos, um encontro com a energia dos antepassados fundadores da Portela com um ritual em memória dos escravizados. O ponto de partida é a cidade de Ajudá, que concentrou grande parte do tráfico de seres humanos da costa sul da África Ocidental A primeira cena é a chegada dos guerreiros guiados por um sacerdote, que invoca espíritos ancestrais. Estes espíritos saem do elemento cenográfico criando um bonito efeito de ventania. Reunidos, eles preparam o terreiro em frente ao templo, representado pelo elemento alegórico.

Apesar da beleza do recurso, um dos integrantes tomou um tombo na saída da cenografia na primeira cabine de julgamento, e na segunda, outro ficou perto de cair. Após a invocação, os guardiões da noite, estruturas feitas de palhas, saíam do elemento cenográfico e participavam do ritual. Por fim, Oxumaré se personifica em seu aspecto principesco, aparecendo após um efeito de fumaça no alto do tripé da comissão, arrancando aplausos do público. Ele vive no Baobá, a árvore da vida ancestral dos povos africanos, um símbolo de resistência que faz a ligação entre o céu e a terra.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal da Portela, Marlon Lamar e Lucinha Nobre, vestiu a fantasia ” Entre o Céu e a Terra”, representando, segundo a mitologia Iorubá, as grandes árvores sagradas que são pontes de contato entre o Orun e o Ayê, isto é, o mundo dos vivos e dos mortos, ou o material e o sobrenatural. A dupla iniciou sua coreografia e os integrantes da comissão de frente se viraram para acompanhar a apresentação.

O casal mostrou uma dança com muito vigor, intensidade, mas também delicadeza. Lucinha que é uma porta-bandeira muito reconhecida pela sua intensidade nos movimentos, em diversas momentos apresentou uma doçura na dança alternando com muita energia na bandeirada. O ponto alto da apresentação era quando a dupla fazia um gingado mais afro na bossa da bateria que remetia a um Ijexá.

Harmonia

Mesmo com os problemas de evolução no início, a escola cantou e fez jus ao que sempre foi visto nos ensaios de quadra, rua e na própria Marquês de Sapucaí. No segundo setor, algumas fantasias estavam mais pesadas e alguns componentes pareciam mais cansados próximo à terceira cabine de julgamento, mas mesmo assim, o canto apresentava um bom nível. Destaque neste setor para a ala das baianas “Nana” e para a velha guarda “sabedoria ancestral”, que além de tudo estavam muito elegantes. Em outros setores, pode-se destacar as alas “Rei guezo”, “Griots”, do departamento feminino, “resistência” e “jongo”.

Enredo

A Portela trouxe para a Sapucaí “Igi Oṣè Baobá” apresentando a história dos Baobás, árvores testemunhas dos tempos imemoriais, acompanhando a sucessão de gerações, ancestrais vivos, que nos remetem ao princípio da criação. Na abertura do desfile, a escola pediu licença aos “Guardiões da noite” para entrar no território por eles vigiado, evocando a força da ancestralidade, buscando a comunicação com a energia criadora dos antepassados e organizando um grande Xirê para isso. Neste setor, a Portela também enfatizou a arte iorubana.

No segundo setor, a escola trouxe “Oxalá”, o orixá mais velho, mais respeitado do panteão africano. No próximo setor, a “árvore mãe”, fez-se referência exatamente à importância dos Baobás para a sobrevivência da fauna e das comunidades humanas. Em seguida, o enredo mostrou como o simbolismo dos Baobás esteve presente no cruel comércio de escravizados, acompanhando a diáspora africana e chegando às Américas.

No quinto e último setor, “Árvore de muitos frutos”, a Portela encerrou o desfile com as ricas manifestações culturais afro-brasileiras que surgiram com o passar dos anos, trazendo em sua essência as raízes do “Berço do mundo”. Enredo de fácil leitura e com boa conexão entre os setores.

Evolução

Uma das principais preocupações para a Portela neste desfile, o quesito acabou sendo bastante afetado pelos problemas com as alegorias. Quando o segundo carro teve problemas para entrar na Sapucaí, a escola não segurou as alas que vinham na frente, o que gerou um buraco que pegou o primeiro módulo de jurados. Depois, problemas no quarto carro, fizeram com que a escola ficasse por algum tempo parada.

Outra questão que impactou um pouco na evolução foram as fantasias principalmente do segundo setor que impediam que os componentes evoluíssem de uma forma mais espontânea e leve. A fantasia da ala “omolu” limitava um pouco a visão dos componentes, que tiveram dificuldades mais próximo ao setor 10 onde havia na lateral uma elevação na lateral da pista. Como destaque positivo os babalorixás e ialorixá na primeira ala que executavam uma coreografia religiosa. No último setor, a ala “jongo” fazia uma bonita coreografia com as mulheres de vestido e os homens segurando tambores.

Samba

O samba, que não foi dos mais festejados na sua escolha em setembro do ano passado, confirmou o bom rendimento que já vinha acontecendo nos ensaios de rua, beneficiado pelo andamento cadenciado produzido pela Tabajara da Samba de mestre Nilo Sérgio e pela excelente condução de Gilsinho por mais um ano. O intérprete se destacava com sua poderosa voz em relação ao restante do carro de som, ainda que as vozes de apoio também tenham feito um excelente trabalho, deixando o cantor mais à vontade para fazer alguns poucos e pertinentes cacos. Destaque para o trecho “Meu povo é resistência feito um nó na madeira do Cajado de Oxalá”, trecho cantado com força pelos desfilantes, além do refrão principal. O refrão do meio também se destacava pelo seu estilo mais melódico.

Fantasias

As fantasias concebidas e idealizadas pelo casal Lage mais uma vez foram destaque no desfile da Portela. Com um conjunto estético de muito bom gosto e volume e satisfatória leitura. Os tons de marrom aliados a outras cores, principalmente o azul da Portela, utilizados em um enredo que fala sobre o Baobá, foi bastante pertinente. A crítica fica para as fantasias do segundo setor que estavam um pouco pesadas em demasia atrapalhando a evolução dos foliões, e para alguma repetição de costeiros que pode tirar décimos da escola como em 2020. Outro ponto de preocupação a ser citado foi o fato de um componente da ala “resistência” perder a fantasia na frente dos jurados próximo à primeira cabine. Destaque positivo para a ala das baianas “Nana”, nos tons de roxo, trazendo o orixá feminino relacionado à origem do homem na Terra.

Alegorias

A Portela apresentou em seu conjunto alegórico 5 carros e 1 tripé. O quesito foi o principal calcanhar de aquiles da escola, apesar de diversos carros apresentarem uma estética muito bonita. Diversos carros tiveram elementos que se quebraram na Sapucaí. No terceiro carro “Pela vastidão da Savana” que trazia animais estilizados, uma escultura de bicho caiu antes de entrar e teve que ser recolocada na entrada da escola. O globo que vinha no final da alegoria acabou passando com uma clara danificação.

O abre-alas, “Berço do Mundo”, que fazia uma referência à arte e a cultura Iorubá, com a cor branca predominante também chegou a agarrar próximo a torre de imprensa no setor 10 e passou desacoplado, o que não deve preocupar em obrigatoriedades devido ao fato de a agremiação ter trazido apenas cinco carros. Outro problema, aconteceu no segundo carro “Baobá , templo e altar”, que trazia a árvore representada no enredo, quando uma cabeça de fantasia foi esquecida no teto.

O quarto carro “travessia” tinha problemas de acabamento nas bandeiras traseiras. Destaque positivo para o tripé “raiz da criação”, que trouxe o louvor a Obatalá para buscar a energia primordial dos povos africanos. O carro abre-alas , etéreo, remetendo à espiritualidade e para o abre-alas que trazia sobre um tronco que se estendia até o céu, a Águia da Portela fazendo a união entre os mundos, evocando ancestralidade.

Outros destaques

A bateria “Tabajara do samba”, de mestre Nilo Sérgio, veio de “Oxossi”, orixá protetor da bateria da Portela, o caçador da flecha certeira. O prefeito Eduardo Paes veio à frente da bateria com uma camisa da Portela. A rainha, Bianca Monteiro” veio de Otim, orixá feminino que habita nas matas, mais uma vez esbanjou simpatia e samba no pé. O jogador Cafu, capitão do penta, foi outra celebridade que veio junto com a escola. A última alegoria “Ancestralidade do samba” indicou os portelenses como legítimos herdeiros dos povos africanos,trazendo a velha guarda, e no alto, uma escultura de Mestre Monarco, a essência da ancestralidade da Portela.

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